Aiba lidera projeto estratégico que vai orientar investimentos públicos e privados no fornecimento de energia elétrica para o agronegócio baiano nos próximos dez anos
Energia para crescer: o desafio da infraestrutura no Cerrado baiano
A força do agronegócio baiano é um dos pilares do desenvolvimento econômico regional e nacional. No entanto, sob a superfície de grandes colheitas e recordes de produtividade, há um gargalo que ameaça o ritmo de expansão das lavouras: a limitação da infraestrutura energética.
Com o crescimento acelerado da agricultura irrigada no Oeste da Bahia, a demanda por energia elétrica aumentou de forma exponencial. Segundo a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), o consumo energético da região cresce cerca de 20% ao ano, enquanto a média nacional é de apenas 3,5% — uma disparidade que escancara o desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda.
Diante desse cenário, a Aiba lançou um estudo inédito e de grande abrangência técnica para mapear as necessidades energéticas do agronegócio regional. O objetivo é identificar gargalos, projetar cenários e orientar investimentos que garantam segurança energética para irrigação, armazenagem, beneficiamento e agroindústria no horizonte da próxima década.
Levantamento técnico e participação dos produtores
O estudo, considerado pioneiro em escala e profundidade, vai traçar um diagnóstico completo sobre o suprimento de energia elétrica no Oeste baiano, incluindo dados da rede de distribuição, perfis de consumo, necessidades de expansão e indicadores de qualidade do fornecimento.
A pesquisa envolverá diretamente os produtores rurais irrigantes, que serão convidados a responder questionários sobre consumo elétrico, área irrigada, número de pivôs, equipamentos, sistemas de bombeamento e planos de expansão. Os dados serão tratados de forma sigilosa, e o resultado consolidado servirá como base técnica para políticas públicas e pleitos de investimentos junto ao governo federal, estadual e concessionárias.
“Este levantamento é um marco para o setor produtivo. Ele vai traduzir, em dados concretos, o que há anos é percebido no campo: a energia elétrica é hoje o principal limitador da expansão da irrigação”, explica Cristina Gross, diretora financeira da Aiba.
Segundo ela, a iniciativa “trará instrumentos para cobrar o cumprimento de promessas de melhoria e garantir que os investimentos em transmissão e distribuição estejam alinhados com o potencial produtivo da região”.
Projeções indicam déficit energético e urgência de ampliação
O levantamento preliminar conduzido pela equipe técnica da Aiba já revela números que chamam a atenção.
Hoje, estima-se uma demanda reprimida de 1,2 gigawatts (GW) apenas para atender os projetos de irrigação e armazenagem de grãos em operação. Para 2035, a projeção chega a 2,5 GW de potência, considerando o crescimento esperado do setor agrícola e a implantação de novas agroindústrias.
Atualmente, a Neoenergia Coelba é responsável pelo fornecimento regional e prevê investimentos expressivos até 2027, incluindo novas subestações, linhas de alta e média tensão e ampliação de capacidade em 616 megawatts (MW).
Mesmo assim, a diferença entre oferta e demanda indica que os investimentos planejados, embora significativos, ainda não serão suficientes para acompanhar o ritmo do agronegócio baiano.
Irrigação e agroindústria: motores da demanda energética
O Oeste da Bahia concentra alguns dos principais polos de produção agrícola do país. Municípios como Luís Eduardo Magalhães, Barreiras, São Desidério e Correntina sustentam cadeias produtivas de grãos, fibras e frutas que dependem fortemente da irrigação.
A adoção de sistemas modernos de pivôs centrais e estruturas de bombeamento exige energia elétrica constante e de qualidade — algo que, na prática, ainda é um desafio.
Produtores como Sérgio Pitt, com mais de três décadas de experiência na região, relatam dificuldades históricas. “Desde os primeiros pivôs, em 1990, enfrentamos falta de energia e baixa capacidade de atendimento. Muitos projetos estão parados por falta de rede”, afirmou o agricultor durante reportagem exibida pela Canal Rural BA.
O impacto vai além da irrigação. As demandas energéticas se estendem às unidades de beneficiamento, algodoeiras, silos de armazenagem e frigoríficos, setores que impulsionam o valor agregado da produção.
A energia, portanto, é o elo invisível que conecta o campo às indústrias e, por consequência, ao desenvolvimento econômico regional.

Fontes alternativas ainda são solução cara e limitada
Com a lentidão das ampliações da rede elétrica, muitos produtores têm recorrido a fontes alternativas de geração, como usinas solares, geradores a diesel e, mais recentemente, baterias de armazenamento.
Contudo, especialistas alertam que essas soluções, embora úteis no curto prazo, representam altos custos de implantação e operação.
O professor Afonso Henriques Moreira Santos, doutor em Engenharia Elétrica e coordenador da pesquisa da Aiba, destaca que “nenhuma alternativa isolada é tão eficiente quanto uma rede de fornecimento rural bem estruturada”.
Segundo ele, o estudo fornecerá dados técnicos que permitirão à Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ao Ministério de Minas e Energia (MME) e à própria Neoenergia Coelba planejar a expansão da rede de forma integrada, evitando o que ele chama de “crescimento errático” do sistema.
“O que se busca é um modelo em que a infraestrutura energética chegue antes da demanda, e não o contrário — um modelo de antecipação, de desenvolvimento induzido, como ocorre com a construção de rodovias e polos industriais”, defende Afonso.
Integração institucional e apoio técnico-científico
Além da Aiba e dos produtores, o projeto envolve universidades, engenheiros e instituições públicas e privadas. O estudo também contará com a cooperação de órgãos federais como o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR) e o Ministério da Agricultura (MAPA), visando a criação de um plano de desenvolvimento energético específico para o Oeste da Bahia.
A consolidação dos resultados permitirá pleitear investimentos estruturantes — incluindo novas linhas de transmissão, subestações e reforços de rede — além de subsidiar projetos de energia limpa e descentralizada, em sinergia com o crescimento sustentável do Cerrado baiano.
“O Oeste da Bahia tem um papel estratégico na segurança alimentar e energética do Brasil. Garantir energia estável e acessível é garantir o futuro da nossa agricultura”, conclui Cristina Gross.
Participação dos produtores é decisiva
A Aiba reforça que a efetividade do estudo depende da ampla participação dos produtores irrigantes. O questionário online está disponível no portal da entidade e pode ser preenchido em poucos minutos.
As informações coletadas serão cruciais para mensurar o consumo real, identificar gargalos e projetar o crescimento da demanda.
Após a consolidação dos dados, o relatório final será apresentado aos órgãos competentes, incluindo MME, MIDR, MAPA, EPE e Neoenergia Coelba, servindo como documento técnico oficial para o planejamento do setor elétrico e para o fortalecimento da agricultura irrigada baiana.
Um novo ciclo de desenvolvimento
O Oeste baiano se tornou, nas últimas décadas, uma das regiões mais produtivas do agronegócio brasileiro. Com tecnologia de ponta, solos férteis e produtores altamente qualificados, a região tem potencial para dobrar sua produtividade e atrair novas agroindústrias — desde que receba o suporte adequado em infraestrutura energética.
O estudo da Aiba simboliza um novo ciclo de planejamento e integração, onde a energia elétrica deixa de ser apenas insumo e passa a ser vetor estratégico do desenvolvimento rural e industrial.
Mais do que um diagnóstico, a iniciativa representa um chamado coletivo à ação, unindo produtores, empresas e governos em torno de um mesmo objetivo: assegurar a energia necessária para sustentar o futuro do agronegócio no coração da Bahia.
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