A escassez de gado no Mercosul está compelindo a indústria da carne a rever seu modelo de negócios, com redução na oferta de matéria-prima, preços firmes e ênfase em valor agregado. Analistas apontam que países como Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai enfrentam desafios significativos em 2026, impulsionados por uma forte demanda internacional e ajustes na produção regional.
Queda na produção regional
A produção argentina de carne deve cair quase 200 mil toneladas em 2026, comparada à média dos últimos três anos. No Brasil, a oferta de gado pode reduzir em 3% a 4%, com foco na manutenção do plantel reprodutor e na reconstrução de bezerros. Esses fatores contribuem para uma menor disponibilidade de matéria-prima em toda a região do Mercosul.
Essa escassez elimina o diferencial de preços que o Brasil manteve por anos, alinhando os valores regionais. Produtores de gado, indústria de processamento e analistas observam que os próximos dois anos serão cruciais para adaptações no setor.
Análise do especialista Víctor Tonelli
O analista argentino Víctor Tonelli destaca a insuficiência de oferta para atender à demanda, o que impulsiona preços mais altos. Ele afirma que o Brasil, embora continue liderando, não sustentará mais preços abaixo da média regional, beneficiando toda a área do Mercosul.
A matéria-prima será escassa. Isso eliminará a vantagem que o Brasil teve durante anos, quando manteve os preços do gado entre um e um dólar e vinte abaixo da média regional. O Brasil continua sendo o número um, mas não conseguirá sustentar esse diferencial de preços, e isso impulsiona toda a região para cima.
Tonelli enfatiza que produtores exigirão preços que o mercado aceite, dada a oferta limitada. Ele critica a visão da indústria de que os números não fecham apenas pelo preço do gado, apontando para a necessidade de mudanças mais profundas.
Redefinição do modelo de negócios
A indústria da carne deve abandonar a venda como commodity e priorizar qualidade, nichos de mercado e valor agregado por corte. Tonelli argumenta que o foco não deve estar em produzir mais barato, mas em vender melhor, com estratégias comerciais aprimoradas.
Não dá para continuar vendendo carne de qualidade como se fosse uma commodity. A mentalidade precisa mudar: precisamos focar em maior valor agregado por corte, buscar nichos de mercado e melhorar nosso posicionamento comercial. O valor não estará apenas em produzir mais barato, mas em vender melhor.
Se não houver adaptações, a indústria enfrentará problemas, pois não haverá excedente de carne. Tonelli sugere que o mercado está disposto a pagar mais por produtos bem posicionados, exigindo que a indústria encontre formas de remunerar produtores e elevar a rentabilidade com base no mercado externo.
Se não mudarem sua estratégia, terão problemas, porque não haverá excedente de carne. O mercado está disposto a pagar mais, mas exige produtos melhor posicionados e uma estratégia comercial diferente. A indústria precisa encontrar uma maneira de pagar o que os produtores pedem e melhorar sua rentabilidade com base no mercado, e não apenas na própria planta.