Produtores e sangradores de borracha natural no Brasil enfrentam uma crise silenciosa, marcada por preços defasados, ausência de contratos formais e falta de políticas públicas, o que ameaça a sustentabilidade da produção nacional.
A retração no mercado de pneus
A retração nas vendas de pneus tem impulsionado a preferência por borracha importada, resultando em uma queda artificial nos preços pagos aos produtores nacionais. Esses produtores precisam sangrar regularmente as seringueiras para manter a produtividade, mas enfrentam dificuldades devido à concentração de mercado em poucas usinas intermediárias. Isso reduz o poder de negociação dos envolvidos na cadeia produtiva.
A indústria de pneus, principal consumidora, beneficia-se dessa dinâmica, já que o Brasil depende de cerca de 60% de importações para suprir sua demanda. Sem contratos formais, os produtores ficam vulneráveis a variações unilaterais nos preços.
Ausência de políticas públicas
Desde 2008, a ausência de políticas públicas que equilibravam os preços entre a borracha nacional e a importada agravou a situação. Anteriormente, essas medidas ajudavam a manter a competitividade da produção local. Agora, a falta de regras e índices de referência permite que compradores decidam unilateralmente os valores pagos.
Não há regra, não há índice de referência. Se amanhã o comprador decidir pagar menos, ele paga – Antonio Carlos Carvalho Gerin, presidente da Câmara Setorial da Borracha do Ministério da Agricultura.
Essa instabilidade ameaça o futuro do setor, pois plantar novas seringueiras exige tempo significativo para gerar resultados.
Se faltar borracha e decidirmos plantar hoje, o país só verá resultado daqui a uma década – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
Impactos sociais e econômicos
A crise afeta diretamente as famílias no campo, onde a extração de borracha natural fixa pessoas nos seringais, gerando renda estável e acesso a serviços básicos. Muitos sangradores trabalham no mesmo local por décadas, mas a migração para as cidades pode deixá-los sem alternativas viáveis.
Um sangrador pode trabalhar no mesmo seringal por décadas. É uma atividade que fixa pessoas no campo e gera renda estável – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
É um problema social grave. No campo, essas famílias têm moradia, renda e acesso a serviços básicos. Na cidade, muitas vezes, não têm alternativa – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
Economicamente, os produtores enfrentam a escolha entre vender a preços muito baixos ou não receber nada, enquanto a borracha representa uma fração pequena no custo final de produtos como pneus de caminhão.
Em um pneu de caminhão que custa mais de R$ 3 mil, a borracha natural representa cerca de 20kg. Um aumento no preço da matéria-prima não gera inflação, mas faz enorme diferença para quem produz – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
Ou o produtor vende a um preço muito baixo ou não ganha nada – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
Defesa de uma gestão justa
O setor defende uma gestão equilibrada que considere os impactos social, ambiental e econômico de toda a cadeia produtiva. Não se opõe à indústria ou às importações, mas busca justiça para evitar o colapso da produção nacional.
O setor não é contra a indústria nem contra a importação. O que defendemos é uma gestão justa, que considere o impacto social, ambiental e econômico de toda a cadeia – Antonio Carlos Carvalho Gerin.
Especialistas alertam que, sem intervenções, a sustentabilidade da borracha natural no Brasil pode estar em risco, afetando milhares de famílias nos seringais do país.