Em um mundo marcado pela polarização política e pelo enfraquecimento da cooperação internacional, o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, defende que o setor privado, especialmente o agronegócio, deve criar suas próprias alianças estratégicas para sobreviver às guerras tarifárias. Durante a palestra inaugural do 24º Congresso Brasileiro do Agronegócio, em São Paulo, Azevêdo destacou como décadas de destruição de consensos e o unilateralismo intensificado pela pandemia de Covid-19 tornaram a diplomacia ineficaz, tanto em fóruns multilaterais quanto em relações bilaterais. Ele citou o tarifaço promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como exemplo recente dessa instabilidade.
Azevêdo, que liderou a OMC entre 2013 e 2020 e hoje atua como consultor da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) e presidente da 9G Consultoria, explicou que a sucessão de governos com ideologias opostas fragiliza laços de confiança, tornando acordos reversíveis de forma súbita. “Compromissos de longo prazo quase não existem mais, porque um acordo feito neste mandato não vale no próximo”, afirmou. Diante dessa realidade, ele argumenta que o setor privado não pode mais depender apenas dos governos para negociar, precisando fomentar relações diretas com entidades estrangeiras para evitar custos altos com protecionismo.
A pandemia acelerou essa tendência ao promover um “eu primeiro” entre nações, com países ricos retendo vacinas e equipamentos, o que abalou a crença em soluções coletivas para desafios globais. Azevêdo alertou que o protecionismo vai além de tarifas, disfarçando-se em regulações ambientais ou trabalhistas, como o mecanismo de ajuste de carbono da União Europeia. Para o Brasil, ele recomenda não escolher lados em disputas geopolíticas, mantendo flexibilidade para navegar nesse “novo normal” de enfraquecimento do multilateralismo, que não é passageiro, mas estrutural.