Considerado uma iguaria fina, o aspargo ainda é pouco conhecido e consumido no Brasil, onde sua produção enfrenta significativos desafios climáticos e econômicos. De acordo com o Censo Agropecuário do IBGE de 2017, a produção nacional era de apenas 49 toneladas anuais, com os maiores volumes concentrados no Distrito Federal, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. A hortaliça, adaptada a climas temperados, exige colheita manual em tempos de escassez de mão de obra, além de ser uma cultura perene que demanda correção de solo e atenção ao ciclo produtivo, o que limita sua expansão.
No Rio de Janeiro, produtores da região serrana, como em Teresópolis, enfrentam dificuldades adicionais devido ao clima tropical de altitude, com amplitudes térmicas que afetam o desenvolvimento da planta. André Azevedo, extensionista rural da Emater Rio, relata que dois dos três produtores locais tiveram problemas nesta safra, incluindo falhas na formação de mudas e perdas de material, levando à interrupção temporária da produção. Casos semelhantes ocorreram em Petrópolis e Nova Friburgo, e três produtores de São Paulo também desistiram do cultivo, destacando a necessidade de materiais mais adaptados ao ambiente brasileiro.
O Rio Grande do Sul, outrora um dos principais polos produtores entre os anos 1960 e 1970, viu sua produção despencar nos anos 1990 devido à concorrência com importações da China. Francisco Antônio Arduin de Arruda, agrônomo aposentado da Emater-RS, recorda o auge em Pelotas, mas lamenta o colapso do mercado local. Hoje, Rosani Schuch Voigt é a única produtora remanescente na região, mantendo a tradição familiar há quase 60 anos por meio da agroindústria Frutos da Terra, que processa aspargos em conserva. Na última safra, ela colheu 2 mil quilos, produzindo cerca de 4 mil vidros anuais, apesar de perdas de 35% no processo.
Os desafios incluem adubação, controle de pragas, transporte adequado e a necessidade de assistência técnica especializada, já que a plantação dura cerca de dez anos e requer frio para dormência e calor para brotamento. Rosani destaca as mudanças climáticas e a escassez de mão de obra como os maiores obstáculos, enquanto Arruda vê potencial em nichos, mas ressalta a perda de uma geração de produtores, que migraram para culturas mecanizadas como soja, canola e trigo. Ele enfatiza a importância de incentivos para revitalizar a produção.
Apesar dos entraves, há sinais de crescimento: na Ceagesp, a comercialização de aspargos nacionais aumentou 60% entre 2023 e 2024, com fornecedores principais em Marialva (PR), Pilar do Sul (SP), Vargem (SP) e Mogi das Cruzes (SP). No entanto, a maioria do produto é importada, com 62% vindo dos Estados Unidos e 25,6% do Peru em 2024. As exportações brasileiras cresceram 297,9% de 2019 a 2024, passando de 19,7 para 78,7 toneladas, com Rio de Janeiro e São Paulo liderando em 2024. No ranking mundial da FAO, a China domina com 7,44 milhões de toneladas em 2023, seguida por Peru, México e Alemanha, enquanto o Brasil importa principalmente do Peru.