Em Brasília, o setor de biocombustíveis busca expandir sua influência ao se aliar à cadeia produtiva da carne, propondo que essa integração se torne uma prioridade em políticas públicas. Durante um seminário na Confederação Nacional da Agricultura (CNA), promovido pela Frente Parlamentar do Biodiesel (FPBio), o deputado federal Alceu Moreira, presidente da entidade, defendeu que o biodiesel deve ser visto não apenas como parte da cadeia de combustíveis, mas principalmente da produção de carne e proteínas. A FPBio, que reúne cerca de 200 deputados e senadores, apresentou essa visão como central para o futuro dos dois setores.
Moreira destacou a relação simbiótica já existente: a indústria de proteínas animais é a principal consumidora de farelo de soja e DDG, subprodutos derivados da produção de biodiesel e etanol de milho, respectivamente. Essa conexão não só sustenta preços de commodities como o milho, beneficiando produtores, mas também pode proteger o setor contra críticas relacionadas ao debate “comida versus combustível”. Recentemente, a escalada nos preços do óleo de cozinha levou o governo a adiar a adoção do B15, impactando o planejamento da indústria.
O setor argumenta que o crescimento dos biocombustíveis ampliará a oferta de ração animal, impulsionando a produção de carne em um momento de demanda crescente na Ásia e Oriente Médio. O Brasil, já líder em exportações de carne bovina e de frango, pode alcançar o terceiro lugar em suínos neste ano. Para Moreira, o avanço coordenado é essencial: mais biocombustíveis geram mais farelo e DDG, exigindo que os frigoríficos expandam a produção e conquistem novos mercados internacionais. “Já poderíamos produzir mais carne, só não fazemos por não ter mercados”, afirmou o deputado.
André Nassar, presidente executivo da Abiove, reforçou que cada ponto percentual a mais na mistura de biodiesel ao diesel representa 3 milhões de toneladas adicionais de esmagamento de soja, demandando escoamento via exportações de proteínas. Atualmente, o mandato está em 15%, com previsão de chegar a 20% até 2030. Essa expansão é vista como oportunidade para agregar valor à cadeia da soja, que contribui com 6% do PIB e 2,4 milhões de empregos, segundo Nicole Rennó, economista da Esalq-USP. Ela estima que maior industrialização poderia quadruplicar esses ganhos em PIB e empregos.
A FPBio planeja transformar essa integração em política de Estado por meio de um projeto de lei que cria o Programa Nacional de Promoção Internacional das Proteínas Brasileiras (PNPIPB). O programa seria gerido pelo Ministério das Relações Exteriores, com apoio da Apex-Brasil, visando previsibilidade de longo prazo e priorização das exportações de proteínas em negociações internacionais, inclusive com os Estados Unidos. João Henrique Hummel, diretor-executivo da FPBio, enfatizou a necessidade de conscientizar a sociedade e políticos sobre os benefícios da produção integrada, com iniciativas como um dashboard atualizado no site da entidade para dados em tempo real.