O Parlamento Europeu, que por anos criticou duramente as negociações comerciais da União Europeia com o Mercosul, agora muda de postura e direciona suas queixas ao acordo imposto pelos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump. Com a volta de Trump à Casa Branca em janeiro, parlamentares europeus expressam insatisfação com o que consideram um pacto desequilibrado e humilhante, enquanto demonstram entusiasmo pela conclusão do acordo com o bloco sul-americano.
Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento e membro do partido socialista alemão, destacou essa reviravolta em uma entrevista coletiva em Bruxelas. Ele criticou o acordo com Washington por faltar previsibilidade e estabilidade, qualificando-o como desequilibrado e irrealista, necessitando de revisão urgente. Em contraste, Lange prometeu trabalhar intensamente para ratificar o acordo com o Mercosul até o final do ano, descrevendo-o como um “maravilhoso presente de Natal para o mundo” e uma forma de solidariedade com o Brasil, afetado por tarifas de 50% impostas por Trump.
No acordo entre a UE e os EUA, a Europa se compromete a eliminar tarifas de importação sobre todos os produtos industriais americanos e a conceder acesso preferencial a uma ampla gama de produtos agrícolas, como frutos secos, lácteos, frutas, legumes, alimentos processados, sementes, óleo de soja e carnes de porco e bisonte. Em troca, os EUA aplicam uma tarifa de 15% sobre produtos europeus. Além disso, os europeus concordam em comprar US$ 750 bilhões em energia americana e investir US$ 600 bilhões adicionais em setores estratégicos dos EUA nos próximos três anos.
Lange questionou a viabilidade dessas metas, calculando que a Europa importa cerca de US$ 100 bilhões em energia por ano e não tem capacidade para elevar isso a US$ 250 bilhões anuais, nem os EUA teriam suprimento suficiente de petróleo e gás. Ele também apontou que o acordo viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), ignorando a Cláusula de Nação Mais Favorecida, que exige tratamento igualitário entre membros, exceto em acordos de livre comércio. Segundo o parlamentar, isso compromete a credibilidade da UE como defensora do multilateralismo e discrimina países do Sul Global.
Na parte agrícola, Lange expressou surpresa com as quotas estabelecidas para importações americanas sem avaliações de impacto na agricultura europeia, contrastando com a rigidez nas negociações com o Mercosul, onde produtos agrícolas e quotas são tratados com sensibilidade. Ele destacou que o acordo com o Mercosul incorpora obrigações do Acordo de Paris sobre o clima, enquanto Trump retirou os EUA desse pacto, demonstrando desprezo pelo tema ambiental.
Geopoliticamente, Lange enfatizou a importância de estabilizar relações com parceiros confiáveis como o Mercosul, em vez dos EUA sob Trump, e rejeitou a ideia de que o acordo com Washington serve para garantir apoio americano à Ucrânia. Durante debates na comissão, vários deputados reforçaram a necessidade de finalizar as negociações com o Mercosul após 23 anos, citando o tratamento injusto dos EUA a países como o Brasil.
Em resposta às críticas, Sabine Weyand, diretora de Comércio da UE, defendeu o acordo como a melhor alternativa disponível, lembrando a ameaça de tarifas de 30% por Trump, reduzidas para 15% na negociação. Ela admitiu que os EUA abandonaram a Cláusula de Nação Mais Favorecida e não pretendem voltar, mas argumentou que o pacto cria uma plataforma para ajustes futuros. No entanto, muitos parlamentares permanecem céticos, e a Comissão Europeia ainda carece de mandato para aprovar o acordo de forma unilateral.