A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou a operação Tropilha na última terça-feira, revelando um esquema de falsificação de documentos que operou por 17 anos e “esquentou” cerca de 13 mil cavalos e 800 bovinos sem procedência. A investigação, centrada em Arroio do Tigre, expõe vulnerabilidades no sistema de controle sanitário e ameaça a credibilidade do setor pecuário do estado, com implicações para a economia local e a confiança em exportações.
O golpe envolvia a adulteração de Guias de Trânsito Animal (GTAs) e exames sanitários obrigatórios, permitindo a circulação de animais roubados, contrabandeados ou inexistentes. Práticas identificadas incluem a “ressurreição” de animais mortos nos registros, a transformação instantânea de potros em adultos aptos para abate e percursos impossíveis de 500 quilômetros em sete minutos, segundo os documentos falsos. Além disso, rebanhos fictícios eram multiplicados em propriedades para gerar saldos inexistentes.
O servidor da Inspetoria Veterinária de Arroio do Tigre, Gilson Dutra de Oliveira, é apontado como figura central no esquema. Mesmo após ter sua senha bloqueada em 2023 devido a denúncias, ele continuou operando com credenciais de colegas até ser afastado. A polícia estima que cerca de 150 produtores rurais foram usados como laranjas, sem seu conhecimento, como no caso do agricultor Everaldo Vieira, de Viamão, e do construtor Avelino Pruch de Jesus, que tiveram seus nomes indevidamente associados a transações.
Entre os envolvidos na aquisição e revenda de animais “esquentados” estão o advogado Eloi Irigaray, de Santa Maria, que foi candidato a vereador em 2024 pelo PSD mas não se elegeu, e seu filho Pablo Irigaray. Suas propriedades foram alvos de buscas e apreensões. O frigorífico Foresta, em São Gabriel, recebeu animais com documentação adulterada, embora a polícia afirme que o abatedouro não tinha ciência da fraude.
A linha do tempo do caso inicia em 2023, com denúncias de movimentações estranhas nos registros de produtores, levando ao bloqueio da senha de Oliveira e à instauração de um processo administrativo. Em 2024, criadores prejudicados registraram ocorrências, culminando na operação em 9 de setembro. Os documentos fraudados incluem GTAs, que atuam como passaportes para o transporte de animais, e exames para doenças como anemia infecciosa equina, mormo, brucelose e tuberculose.
A gravidade da fraude vai além do crime organizado, gerando riscos sanitários ao permitir a circulação de animais potencialmente doentes, o que compromete a saúde pública e a qualidade da carne. Economicamente, o esquema cria concorrência desleal para produtores honestos e mina a confiança no setor pecuário gaúcho, essencial para mercados internacionais. A Polícia Civil continua colhendo depoimentos e analisando documentos, com expectativa de novos desdobramentos.