Nos últimos anos, as exportações de pesticidas da China passaram por uma transformação significativa, com as formulações superando os materiais técnicos em valor e se tornando o principal motor das vendas internacionais. Em 2023 e 2024, essas formulações representaram mais da metade das exportações chinesas, impulsionadas principalmente pela demanda na América do Sul, especialmente no Brasil. Essa mudança reflete uma estratégia de globalização que vai além da produção básica, incorporando inovações tecnológicas e adaptações locais para ganhar terreno em mercados tradicionalmente dominados por multinacionais.
No Brasil, o maior mercado da região, as empresas chinesas aumentaram sua participação nas importações de formulações de 18,35% para 45,60% entre 2018 e 2024, enquanto a fatia de fornecedores como Estados Unidos, Israel, França, Alemanha e Reino Unido diminuiu. Políticas tarifárias neutras no país permitiram essa expansão, permitindo que produtos “Made in China” substituíssem gradualmente as ofertas de corporações globais. Essa tendência destaca uma segunda onda de globalização na indústria agroquímica chinesa, combinando vantagens de custo com avanços em conformidade regulatória e tecnologia verde.
A estratégia chinesa envolve múltiplas dimensões, incluindo o controle de custos por meio de tecnologias como nano-dispersão e materiais de liberação sustentada, que elevaram a eficiência dos ingredientes ativos em mais de 30%. Produtos como emulsões de baixa toxicidade (EW) e suspensões de cápsulas aquosas (CS) atendem a padrões ambientais internacionais, facilitando registros em diversos países. Além disso, a adaptação às condições locais de solo e pragas, apoiada por sistemas de orientação em campo, tem impulsionado a penetração em canais de distribuição e a fidelidade dos usuários.
A Sino-Agri Leading Biosciences Co., Ltd. emerge como um ator chave nessa expansão, com uma rede que abrange mais de 100 países e uma plataforma aberta chamada SINO-AGRI. Lançada em 2023, essa iniciativa promove uma abordagem de “agricultura inclusiva” e integra serviços como registro de produtos, gestão de canais e suporte técnico. No mercado sul-americano, a empresa foca em soluções para cultivos como soja e milho, superando barreiras regulatórias e colaborando com distribuidores locais para criar ecossistemas sinérgicos.
Diante de desafios como barreiras culturais, variações em conformidade e flutuações cambiais, especialmente na Argentina, onde multinacionais detêm mais de 70% do mercado, as empresas chinesas veem oportunidades em parcerias com canais consolidados. Iniciativas como o Cinturão e Rota e o RCEP facilitam essa integração, permitindo que Pequim influencie padrões globais por meio de modelos de “produto + registro + serviço”. Essa abordagem não só reduz custos para parceiros, mas também posiciona a China como líder em tecnologias verdes, como biopesticidas e interferência de RNA.
No futuro, a competição no setor agroquímico evoluirá para capacidades sistêmicas, com as empresas chinesas precisando investir em barreiras tecnológicas, serviços localizados e sinergias industriais. Essa transição de exportações de produtos para marcas robustas pode redefinir as dinâmicas geopolíticas no agronegócio, fortalecendo a influência chinesa na América do Sul e além, em um contexto de crescente interdependência econômica global.