A Husqvarna, empresa sueca com longa tradição em equipamentos para jardinagem e agricultura leve, enfrenta um momento de transição estratégica no Brasil, impulsionado pela crescente concorrência de fabricantes chineses. Diante da evolução rápida na qualidade dos produtos rivais, a companhia está pivotando seu modelo de negócios para priorizar serviços pós-venda e manutenção, especialmente na divisão de Mercados Emergentes, que inclui o país. Pedro Quevedo, diretor comercial para a América Latina, alerta que, sem essa mudança, a empresa corre o risco de ser superada. Ele prevê que, em cinco a dez anos, o foco em serviços completos será essencial para manter a preferência dos clientes.
Uma das ações chave nessa estratégia foi a aquisição da startup brasileira InCeres em 2024, que desenvolveu uma plataforma de agricultura de precisão para monitoramento de solo e nutrição. A ideia é integrar essa tecnologia aos equipamentos da Husqvarna, permitindo cobranças por assinaturas mensais e aplicações como monitoramento foliar. Quevedo destaca que microtratores conectados possibilitarão a produtores menores o uso preciso de defensivos e fertilizantes, similar ao que grandes produtores já fazem. Há planos para conectar a plataforma da InCeres à da Orbit, startup americana adquirida em 2021, focada em irrigação inteligente.
No âmbito operacional, a Husqvarna conclui neste mês a ampliação de sua fábrica em São Carlos, no interior de São Paulo, que atende a América Latina, Ásia, África e Leste Europeu. A produção deve triplicar, passando de 300 mil para 1 milhão de unidades anuais até 2026. A expansão inclui um centro de experiência para treinamentos de mecânicos, beneficiando a rede de 3,1 mil revendedores, e um centro de pesquisa voltado para agricultura leve. Projetos em desenvolvimento incluem uma máquina para colheita de cana-de-açúcar em terrenos acidentados, além de novos derriçadores para café e tratores cortadores de grama apresentados na Agrishow deste ano.
A empresa também otimizou sua logística com um novo centro de distribuição em Belém, no Pará, reduzindo o tempo de entregas na região Norte de 25 para sete dias. Discussões avançam para um projeto similar em Barueri, São Paulo, onde a capacidade atual está no limite. Fundada em 1689 como fabricante de armas para o Exército sueco, a Husqvarna tem uma história de adaptações, passando por máquinas de costura, fogões, bicicletas e, no século 20, motosserras e minitratores graças a inovações como motores leves antivibração. Hoje, listada na Bolsa de Estocolmo, fatura US$ 4,56 bilhões globalmente, com 15 mil colaboradores e 28 fábricas.
No Brasil, onde opera há 45 anos com mais de 200 funcionários, a Husqvarna é liderada por Mauro Favero na área de Mercados Emergentes, responsável por 15% da receita global. Suas divisões incluem Floresta e Jardim (63% da receita), Gardena (22%) e Construção (14%), com liderança em robôs cortadores de grama e sistemas de irrigação. Na América Latina, 86% dos negócios são B2B, com parcerias como a com a Cooxupé para revenda a cooperados. O público principal é profissional, mas há crescimento entre não profissionais, influenciado pela pandemia e escassez de mão de obra.
Em termos de sustentabilidade, a companhia busca dissociar sua imagem de desmatamento, associada a motosserras, por meio de iniciativas como o plantio de 1 milhão de árvores em parceria com a Veritree. No Brasil, isso inclui 150 mil manguezais no Maranhão com a ONG Samaúma. A maioria dos produtos ainda usa combustíveis fósseis, mas há linhas a bateria e discussões para motores 100% a etanol. A empresa evitou impactos maiores de tarifas americanas, com isenção da sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros.