Em Olímpia, no interior de São Paulo, a francesa Tereos, uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do Brasil, enfrenta o desafio de reduzir pela metade sua pegada de carbono até 2033. Essa meta ambiciosa envolve uma revisão completa de suas operações, desde o cultivo da cana-de-açúcar até a logística de distribuição, impulsionada pela demanda de clientes internacionais, especialmente na União Europeia, que representa um destino chave para mais de 90% das exportações de açúcar da empresa.
Clientes como Danone e Nestlé, que possuem metas de descarbonização validadas pela Iniciativa para Metas Baseadas na Ciência (SBTI), pressionam por fornecedores com emissões menores. Fernandes Mendes, diretor de Sustentabilidade, Desenvolvimento de Negócios e Relações Públicas da Tereos, explica que até 85% das emissões desses compradores estão no escopo 3, relacionado às matérias-primas. Ao oferecer produtos com pegada de carbono reduzida, a Tereos contribui para que esses clientes atinjam seus objetivos, o que já resultou em 20 contratos adicionais e 80 em negociação, com prêmios de 10 a 20 euros por tonelada.
No Brasil, o inventário de carbono da Tereos revela emissões anuais entre 850 mil e 900 mil toneladas, com quase 500 mil toneladas provenientes da agricultura. Para combater isso, a empresa intensifica o uso de drones para aplicações precisas, reduzindo a poluição em comparação com métodos tradicionais como aviões ou tratores. Além disso, adota práticas de agricultura regenerativa, substituindo insumos fósseis por biofertilizantes e adubos naturais, em parceria com a holandesa Koppert, que produz biológicos localmente.
José Olavo Bueno Vendramini, superintendente de Excelência Agronômica e Produtores de Cana da Tereos, destaca iniciativas como a rotação de culturas com leguminosas, soja, amendoim e crotalária para fixar nitrogênio no solo. Desde 2020, a empresa utiliza fertilizantes de liberação controlada da ICL, reduzindo a dosagem em 40%, e aplica vinhaça de forma localizada para minimizar o volume e as emissões. O monitoramento constante da biota do solo mostra melhorias na matéria orgânica e nos níveis de fósforo, com 100% dos fungicidas agora sendo biológicos.
Na logística, a Tereos planeja eliminar o diesel até 2033, substituindo-o por biometano em caminhões e convertendo tratores e colhedoras para etanol, que emite 80% menos carbono. Testes nos Estados Unidos indicam potencial para cortar 100 mil toneladas de emissões. A empresa também aguarda avanços na Lei do Combustível do Futuro para expandir a produção de biometano, enquanto se beneficia do crescimento de combustíveis marítimos limpos, responsáveis por 90% de suas exportações de açúcar.
Globalmente, a Tereos visa reduzir em 20% o consumo de água, cortar 50% das emissões industriais e 36% das agrícolas. No Brasil, apesar de desafios como queimadas que afetaram 30 mil hectares e reduziram a moagem de cana para cerca de 18 milhões de toneladas nesta safra, os esforços de rastreabilidade cobrem 100% da cana própria e um terço da de terceiros, fortalecendo a posição competitiva no mercado internacional.