Entre as décadas de 1970 e 2000, milhares de agricultores do Sul do Brasil migraram para o Cerrado em busca de prosperidade, atraídos pelo potencial da soja. Joel Neri Weiss é um desses pioneiros, representando uma conexão única entre o início do cultivo dessa oleaginosa no país e suas perspectivas futuras. Descendente de uma das quatro famílias que, há mais de um século, iniciaram a produção comercial de soja no Brasil, ele carrega um legado histórico.
Em 1923, Johann Müller, bisavô de Joel, cultivou uma das primeiras plantações de soja em terras que hoje pertencem ao município de Cândido Godói, no noroeste do Rio Grande do Sul. Naquela época, o grão era usado principalmente para rotação com o trigo, então a principal cultura gaúcha, e para alimentar porcos, o que lhe rendeu o apelido de “grão dos suínos”. Um nome simples que não prenunciava o papel atual da soja como o principal produto das exportações do agronegócio brasileiro.

Na década de 1950, Müller e sua família mudaram-se para Maripá, no oeste do Paraná, uma nova fronteira agrícola. Inicialmente focados no café, eles mantiveram os porcos e, consequentemente, a soja para alimentá-los. “Acreditavam que o clima local era menos rigoroso, ideal para o café, que era mais lucrativo. Mas uma geada acabou com as plantações, e a soja ganhou espaço”, conta Joel, natural de Maripá.
Em 2009, motivado pelos sogros, que já haviam se estabelecido no Tocantins, Joel adquiriu a Fazenda Recanto das Perdizes, em Monte do Carmo, a 115 km de Palmas. Os desafios foram enormes: o regime de chuvas, com seca por metade do ano, dificultava a dupla safra; nematoides atacavam as raízes da soja; e o solo arenoso, com baixa argila, retinha pouca umidade. “Passamos por muitas dificuldades para nos mantermos no cultivo”, diz ele.
Com investimentos em variedades mais resistentes, Joel adaptou-se ao Cerrado. A produtividade da fazenda cresceu de 40 sacas por hectare no início para até 75 sacas em anos favoráveis. “Foi um aprendizado constante”, afirma.
Crescimento e conquistas
A trajetória da soja no Brasil, da qual Joel e sua família são parte, é marcada pelo aumento expressivo da produtividade, resultado da combinação entre ciência, políticas públicas e dedicação de produtores e empresas. Há pouco mais de 100 anos, quando o país vivia o auge do Ciclo do Café, a soja era desconhecida no território nacional. Após 1930, nenhum produto agrícola voltou a dominar sozinho a economia, como fizeram o pau-brasil, a cana-de-açúcar, a borracha, o cacau e o café.
Embora não nomeie um ciclo econômico, a soja alcançou uma relevância inquestionável. Hoje, é a principal cultura agrícola do país, lidera as exportações agropecuárias e registrou o maior crescimento nas últimas cinco décadas. A produção saltou de 9,9 milhões de toneladas na safra 1974/75 para 171,5 milhões de toneladas em 2024/25. Desde 2019/20, o Brasil é o maior produtor mundial, superando os Estados Unidos, que colheram 118,8 milhões de toneladas na última safra.

Em 2024, a cadeia da soja gerou um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 650 bilhões, segundo estimativas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), equivalente a 5,5% do PIB nacional. Como outros produtos agrícolas, a soja beneficia-se de isenções fiscais, como PIS, Cofins e ICMS nas exportações. “Esses incentivos, comuns globalmente, buscam estimular a produção de alimentos”, explica Viviane Morales, especialista em tributação no agronegócio do escritório Lastro.
Dados da Receita Federal indicam que as desonerações da soja somam R$ 6,3 bilhões, beneficiando principalmente as tradings. Em 2023, as exportações do grão geraram US$ 42,9 bilhões, representando 12,7% da balança comercial, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Origens da soja no Brasil
Originária do norte da China, onde é cultivada há cerca de 5.000 anos, a soja chegou ao Ocidente no início do século XX, nos Estados Unidos, para alimentação animal e produção de óleo. No Brasil, um experimento inicial em 1882, na Escola Agrícola São Bento das Lages, na Bahia, não teve sucesso devido à falta de adaptação das sementes americanas ao clima local. Há registros de que imigrantes japoneses também trouxeram sementes em 1908.
O cultivo comercial começou em 1923, no Rio Grande do Sul, com Johann Müller e três outras famílias (Brachmann, Schwartz e Bessel), que receberam sementes do missionário luterano Albert Lehenbauer. Nascido nos EUA, Lehenbauer veio ao Brasil em 1915 para evangelizar colonos russo-alemães em Santa Rosa (RS).

Em 1922, durante uma viagem aos EUA para tratar da saúde, Lehenbauer conheceu o cultivo de soja no Missouri, onde sua irmã produzia o grão. Impressionado com os benefícios ao solo e ao gado, ele trouxe sementes ao Brasil em 1923, plantando parte em sua horta – hoje o Marco Zero da Soja no Brasil – e distribuindo o restante às quatro famílias, que se comprometeram a devolver parte da colheita para disseminar a cultura.
Sili Reiter Weiss, de 78 anos, é a atual proprietária da área de 12,5 hectares, adquirida há 60 anos. “Compramos por causa da água abundante, mas só depois soubemos da história da soja”, conta.

Em Senador Salgado Filho (RS), Hildegart Schwarz Schulz, 72 anos, neta de Bruno Schwarz, outro pioneiro, lembra: “Meu avô dizia que, no início, a produção era baixa, mas, com o ajuste no plantio, a soja passou a render mais”. Além de alimentar suínos, o grão torrado substituía o café, caro na época. “Minha avó usava soja como alternativa”, recorda Hildegart.

Nelson Eberhardt, 78 anos, de Ubiretama (RS), recorda a evolução do cultivo. “No começo, a soja era plantada com milho. Só após os anos 1970, com preços melhores e mecanização, virou monocultura”, diz. Em sua primeira lavoura mecanizada, em 20 hectares, ele plantou duas sacas. “Cerca de 80 pessoas vieram ver a máquina ceifar, trilhar e ensacar”, lembra. Eberhardt abandonou a soja há 10 anos por baixa rentabilidade em pequenas áreas. “Hoje, é preciso pelo menos 50 hectares para viabilizar o cultivo”, explica, dedicando-se agora à pecuária leiteira.

O império da soja
Em Mato Grosso, a família Maggi Scheffer transformou a soja em um império. Há 43 anos, os irmãos Eraí, Elusmar e Fernando, de Torres (RS), venderam um sítio de 65 hectares em São Miguel do Iguaçu (PR) e se mudaram para Rondonópolis (MT). Em 1988, arrendaram a Fazenda Bom Futuro, de 2.000 hectares, pagando o aluguel com a produção. Em 1993, Eraí comprou a propriedade. Hoje, o Grupo Bom Futuro emprega 7.000 pessoas, fatura cerca de R$ 6 bilhões anuais e cultiva 714.000 hectares, sendo 310.000 de soja, com produtividade média de 68 sacas por hectare e 1,3 milhão de toneladas colhidas por ano.

“No passado, colhíamos 42 sacas por hectare. Hoje, chegamos a 68,7, com talhões alcançando 105 sacas. Meu objetivo é atingir 80 sacas em toda a área a médio prazo”, afirma Eraí. Certificado pela Round Table on Responsible Soy (RTRS), o grupo adota plantio direto, agricultura de precisão e bioinsumos, evitando áreas desmatadas. “O Brasil, como líder na produção de alimentos, precisa mostrar sustentabilidade. Queimadas e desmatamento ilegal são exceções, não a regra”, diz.
Inovações científicas
O aumento da produtividade da soja deve-se aos avanços científicos. Fundada em 1974, a Embrapa priorizou o cultivo de grãos no Centro-Oeste. Em 50 anos, a Embrapa Soja desenvolveu cerca de 440 cultivares, impulsionando a sustentabilidade e o rendimento de produtores como Eraí Maggi.
Na década de 1980, os irmãos Ricardo e Rogério Arioli deixaram Erechim (RS) para cultivar soja em Campo Novo do Parecis (MT), onde a produtividade era de 35 sacas por hectare. “Não havia infraestrutura, como energia ou médicos”, lembra Ricardo. Hoje, sua Agropecuária Novocampo colhe até 90 sacas por hectare em alguns talhões, com certificação RTRS, integração com pecuária e uso de bioinsumos.

Na Bahia, onde a soja enfrentou um fracasso inicial em 1882, a safra 2025/26 deve registrar a segunda maior produtividade média do país, com 65,9 sacas por hectare, segundo a Conab, atrás apenas de Goiás. Luiz Pradella, que começou a produzir em Formosa do Rio Preto (BA) em 2000, enfrentou solos arenosos e falta de infraestrutura. “Com o tempo, superamos os desafios com melhoramento do solo e rotação de culturas”, diz. A região, entre o Cerrado e o semiárido, beneficia-se de altitude e amplitude térmica favoráveis.

Tropicalização da soja
O sucesso da soja no Brasil central deve-se à “tropicalização”, iniciada nos anos 1970, liderada por Romeu Kiihl. Formado nos EUA, o agrônomo desenvolveu, no IAC, Iapar e Embrapa Soja, 150 variedades adaptadas ao Cerrado. Hoje, na TMG Sementes, ele segue ativo. “O êxito veio da correção do solo, genética para colheitas antecipadas e a resiliência dos agricultores que desbravaram o Centro-Oeste”, explica.

A produtividade média da soja no Brasil dobrou em 50 safras, de 1.748 kg para 3.621 kg por hectare. Para Alexandre Nepomuceno, da Embrapa Soja, o potencial é de 12.000 kg por hectare. “Com ciência e manejo, podemos crescer mais rápido”, diz. O sequenciamento genético, que custou US$ 100 milhões e 15 anos, hoje leva quatro horas e US$ 500. “Temos 65.000 tipos de soja. Sabendo o que cada gene faz, podemos melhorar por transgenia ou edição gênica”, completa.
A adoção de transgênicos enfrentou barreiras legais. A Lei de Proteção de Cultivares veio em 1997, e a Lei de Biossegurança, em 2005. Antes, produtores como Décio Geraldo Schleger, de Santa Rosa (RS), usavam sementes transgênicas ilegalmente, vindas da Argentina, para combater ervas invasoras. “Era passado entre vizinhos, mas com medo da fiscalização”, lembra Décio, que hoje cultiva 120 hectares com seu filho, Gustavo.

Produtividade e mercado
Aumentar a produtividade exige investimento, segundo Daniel Glat, do CESB. “Genética, operações precisas e cuidado com o solo são essenciais”, diz. Guilherme Bastos, da FGV Agro, prevê que o crescimento da renda global, especialmente na Ásia e África, elevará a demanda por farelo de soja para ração. “O Brasil é o único capaz de expandir área e produtividade”, afirma, destacando o Matopiba e a região Norte, com 53 a 55 milhões de hectares disponíveis.
A transição energética impulsiona a demanda por óleo de soja para biodiesel, SAF e termoelétricas. A lei do Combustível do Futuro prevê aumentar a mistura de biodiesel no diesel de 15% para 20% até 2030, exigindo 3 milhões de toneladas adicionais de soja por cada 1% de mistura, segundo André Nassar, da Abiove. Porém, a demanda por farelo limita o esmagamento, que processa 33% da soja colhida. “Indústrias no interior encarecem o transporte até os portos”, explica Bastos.
Sustentabilidade e desafios climáticos
As mudanças climáticas ameaçam a soja. “Regiões com estresse climático exigem manejo defensivo, diferente de áreas irrigadas”, diz Glat. Eduardo Assad, da FGV, destaca que o Sul, onde a soja começou por semelhança climática com os EUA, perdeu R$ 300 bilhões entre 2000 e 2023 devido ao clima, sem contar as enchentes de 2024. “O Sul é vulnerável. Sem sistemas integrados, as perdas continuarão”, alerta.
Ondas de calor, com temperaturas até 4ºC mais altas, reduzem até 1.000 kg por hectare na floração. Assad defende sistemas lavoura-pecuária-floresta para manter a umidade do solo. O desmatamento, responsável por 74% da redução de chuvas no Norte e Centro-Oeste, é outro obstáculo. No Matopiba, produtores mais tecnificados aplicam práticas sustentáveis, mas a má gestão de alguns prejudica a imagem do setor.

Laercio Dalla Vecchia, de Mangueirinha (PR), é exemplo de sustentabilidade. Com 450 hectares, ele recebe 2.000 visitantes anuais para mostrar práticas como plantio direto, rotação de culturas e uso de plantas de serviço (aveia, centeio, ervilha, girassol), que melhoram o solo e controlam pragas. “Essas plantas criam um ambiente saudável, reduzindo ervas daninhas e nematoides”, explica. Sua fazenda, com 30% de soja, venceu o Desafio do CESB em 2020, com 118,8 sacas por hectare, e alcançou 98 sacas em 2024/25. “Boas práticas podem elevar a produtividade nacional. Cuidar do solo é cuidar das futuras gerações”, afirma.
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