Em uma análise detalhada, um experiente pecuarista da região do Xingu critica práticas comuns na pecuária brasileira que, segundo ele, priorizam a quantidade em detrimento da qualidade da carne. Com base em sua vivência como ex-açougueiro e produtor, ele destaca dois erros estratégicos que comprometem o setor, e esses pontos encontram respaldo em estudos científicos da Embrapa e dados de mercado. Essa discussão ganha relevância em um contexto onde o Brasil é um gigante na exportação de carne, mas enfrenta debates sobre a excelência do produto final.
O primeiro erro apontado é a inseminação precoce de novilhas, por volta dos 13 a 14 meses, o que o pecuarista considera uma “bobagem”. Ele argumenta que fêmeas da raça Nelore não estão preparadas para parir tão cedo, aos 22 meses, o que resulta em falhas na reconcepção posterior. De acordo com o produtor, essa prática ignora a estrutura física das animais, levando a problemas de longo prazo no rebanho.
Estudos da Embrapa Gado de Corte corroboram essa visão, indicando que a prenhez em novilhas muito jovens exige manejo nutricional e sanitário intensivo, muitas vezes inviável em sistemas extensivos a pasto. Dados mostram que vacas que parem pela primeira vez aos 24 meses têm taxas de reconcepção abaixo de 50%, enquanto aquelas inseminadas entre 24 e 27 meses alcançam 70% a 85%. Essa abordagem mais tardia promove a longevidade do rebanho e a sustentabilidade econômica, evitando investimentos elevados em suplementação que nem sempre se justificam.
O segundo erro destacado é a preferência por bois inteiros, não castrados, que oferecem maior ganho de peso, mas sacrificam a qualidade da carne. O pecuarista, com sua experiência em açougue, afirma que essa carne é “ruim”, com pouca marmorização e gordura, elementos essenciais para o sabor e a suculência. Ele classifica isso como um “desastre” para o paladar, mesmo que financeiramente vantajoso no curto prazo.
A ciência zootécnica confirma essas observações: a testosterona em machos não castrados favorece o crescimento muscular, mas reduz a deposição de gordura intramuscular. Pesquisas indicam que animais castrados apresentam carne mais macia, com maior atividade de enzimas amaciadoras, e pontuações superiores em marmoreio, frequentemente acima de 3,5 em escalas de 1 a 5. Além disso, a carne de touros tende a ser mais escura e com pH elevado, encurtando sua vida útil.
No mercado, enquanto o foco em commodities valoriza o peso, nichos premium como o Selo Angus e cotas de exportação para a Europa remuneram características como maciez e acabamento de gordura, mais comuns em animais castrados. Essa tendência sugere que investir em qualidade pode elevar o posicionamento do Brasil como produtor de excelência, equilibrando volume com valor agregado.
A análise do pecuarista do Xingu reflete dilemas biológicos e econômicos do setor, apoiados por evidências científicas. Optar por estratégias que priorizem a longevidade das matrizes e a castração pode significar ganhos menores imediatos, mas fortalece a competitividade a longo prazo em um mercado global cada vez mais exigente.