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sexta-feira , 6 março 2026
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Produtor pode multiplicar semente de soja para uso próprio? Entenda mitos e verdades sobre o tema

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Cultivar correta, vigor, germinação e manejo de qualidade são pilares decisivos para o sucesso da safra de soja no Brasil.

Com o avanço do calendário agrícola e o início da semeadura da soja em diversas regiões do país, os produtores rurais entram em uma das etapas mais determinantes da safra. A escolha da semente, da variedade e do momento ideal de plantio impacta diretamente na germinação, vigor e produtividade final da lavoura. É também nessa fase que surgem as principais dúvidas: toda semente certificada é igual? Semente mais cara garante mais produção? E afinal, o produtor pode multiplicar semente para uso próprio?

Para esclarecer esses pontos, os pesquisadores Fernando Henning e José de Barros França Neto, da Embrapa Soja, e os especialistas Marcos Marchioro e Jair Unfried, da Satis, explicaram o que é mito e o que é verdade sobre as sementes de soja — informações fundamentais para o agricultor que busca eficiência e sustentabilidade em sua produção.

⚖️ O que diz a lei: uso próprio é permitido, mas com limites

Sim, o produtor pode multiplicar semente de soja para uso próprio, desde que siga as regras da Lei de Proteção de Cultivares (Lei nº 9.456/1997) e da Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005).

Isso significa que o agricultor pode reservar parte da produção de uma safra para replantar em sua própria propriedade, sem fins comerciais. A prática, conhecida como uso próprio, é legal, mas tem limites bem definidos:

Proibida a venda ou troca de sementes salvas; Permitido apenas o uso dentro da própria área do produtor; Em casos de sementes com tecnologias transgênicas ou protegidas por patentes, é obrigatório seguir os contratos e acordos firmados com as empresas detentoras da tecnologia.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e as empresas de biotecnologia realizam monitoramento constante, utilizando testes genéticos e rastreabilidade das notas fiscais para detectar o uso indevido.

Henning explica que a lei busca equilibrar o direito do produtor e a proteção à pesquisa e inovação, já que as cultivares modernas resultam de investimentos bilionários em melhoramento genético e biotecnologia.

🌾 A falsa economia da “semente salva”

O uso da chamada semente salva — aquela que o próprio produtor reserva de sua colheita — ainda é comum no campo brasileiro, especialmente em pequenas propriedades. Mas, segundo Marcos Marchioro, gerente de negócios da Satis, essa prática pode custar caro.

“O produtor acredita que está economizando, mas subestima as perdas invisíveis: menor vigor, falhas de estande, disseminação de patógenos e aumento de replantio. No fim, o barato sai caro”, afirma.

Sementes certificadas passam por processos rigorosos de seleção, secagem, resfriamento e armazenamento, com controle de umidade e temperatura. Já a semente salva sofre com variações climáticas e danos mecânicos na colheita, o que reduz drasticamente sua viabilidade e desempenho.

Além disso, o uso contínuo de sementes próprias faz o produtor perder acesso a novas cultivares geneticamente melhoradas, que trazem ganhos de até 10% a 15% em produtividade e maior resistência a pragas e doenças.

🌿 Germinação e vigor: os parâmetros que garantem desempenho

Toda semente certificada deve apresentar germinação mínima de 80% e pureza de 98%, conforme exige o Ministério da Agricultura. No entanto, segundo Henning, esses são apenas os requisitos básicos.

“Existem empresas que trabalham com lotes acima de 90% de germinação e alto vigor, o que faz diferença significativa no campo, principalmente em ambientes mais desafiadores”, explica o pesquisador da Embrapa.

O vigor representa a capacidade da semente de emergir e se desenvolver sob condições adversas, como seca, calor intenso ou compactação do solo. Sementes de alto vigor produzem plântulas mais uniformes, resistentes e produtivas, resultando em lavouras mais homogêneas e rentáveis.

🚜 Manejo e ambiente: aliados indispensáveis da tecnologia

De nada adianta investir em uma semente de alta qualidade se o manejo de plantio for falho. A regulagem da semeadora, o preparo do solo, a profundidade correta de deposição e o controle de pragas e doenças são fatores decisivos para expressar o potencial genético da cultivar.

Henning reforça que a agricultura é uma “indústria a céu aberto”, e cada detalhe conta. “O manejo pode reduzir diferenças entre lotes, mas não as elimina. Sementes com problemas fisiológicos sempre terão desempenho inferior em ambientes desafiadores”, alerta.

Até mesmo o tamanho da semente, determinado pela peneira, influencia a plantabilidade e a uniformidade da emergência. Um lote com sementes muito desuniformes pode resultar em falhas de estande e plantas competindo por espaço e luz.

🧬 Tecnologia não dispensa boas práticas

As sementes transgênicas trouxeram ganhos expressivos de produtividade e resistência, mas o manejo continua essencial.

O uso de herbicidas, o controle de plantas daninhas e o monitoramento constante de pragas seguem como obrigações do produtor.

“Mesmo com tecnologia embarcada, o desempenho no campo depende da forma como ela é usada. Nenhuma semente substitui o bom manejo”, ressalta o pesquisador da Embrapa.

🌎 A escolha da cultivar é o primeiro passo para o sucesso

Cada região do Brasil tem suas particularidades de clima, solo e janela de semeadura. Por isso, a escolha da cultivar deve sempre ser técnica e orientada por um engenheiro agrônomo, considerando a adaptação ao ambiente de produção e o histórico da área.

Henning compara o processo à compra de uma máquina: “Ninguém adquire um trator sem conhecer sua potência e suas especificações. O mesmo vale para a cultivar: é preciso conhecer suas características para aproveitar todo o seu potencial produtivo”.

🌻 Conclusão: qualidade da semente é investimento, não custo

Os especialistas são unânimes: investir em semente de qualidade é uma das decisões mais rentáveis do ciclo produtivo.

A economia aparente da semente salva é rapidamente superada pelas perdas em germinação, vigor e sanidade, além de limitar o acesso às inovações que impulsionam o agronegócio brasileiro.

Para o produtor rural, compreender as diferenças entre uso próprio legal, qualidade certificada e manejo adequado é o caminho mais seguro para produtividade, rentabilidade e sustentabilidade no campo.

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