Em Belém, no Pará, um fragmento florestal conhecido como Capoeira do Black demonstra o potencial de recuperação da Amazônia, servindo como exemplo concreto para discussões na COP30. Com 8,5 hectares, essa área integra o complexo de mais de 3 mil hectares da Embrapa Amazônia Oriental, onde pesquisas sobre adaptação agrícola às mudanças climáticas ganham destaque. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, destaca que o local, originalmente mata virgem, foi desmatado no final do século XVIII e iniciou um processo de restauração auxiliado por áreas vizinhas preservadas, como o Parque do Tinga. Hoje, após quase um século, o fragmento se assemelha a uma floresta densa, com mais de 265 espécies de árvores e uma biodiversidade oito vezes maior que a da Inglaterra inteira.
A Capoeira do Black recebeu esse nome em homenagem a George Alexander Black, um pesquisador americano que, em 1945, realizou os primeiros registros botânicos no local. Black atuou como guardião da área até sua morte em 1957, durante uma expedição no Baixo Rio Amazonas. A história do fragmento remonta à Fazenda Murutucu, que abrigava uma olaria e um engenho, passando pelo Instituto Agronômico do Norte em 1940 e evoluindo para a Embrapa Amazônia Oriental em 1998. Apesar de desafios como a construção da rodovia Murutucu nos anos 1970, que ameaçou a regeneração, o local foi demarcado como reserva biológica e experimentou uma retomada significativa entre 2000 e 2005, alcançando um índice de estabilidade florestal superior a 90%.
Além de laboratório científico, a Capoeira funciona como espaço de lazer e educação para a população de Belém, com visitas escolares e uma trilha recém-inaugurada às vésperas da COP30. Ferreira enfatiza o papel simbólico do lugar na conferência global: ele ilustra como florestas regeneradas podem sequestrar carbono de forma eficiente. Em uma medição recente, uma única árvore no local armazenava 8 toneladas de carbono equivalente, comparável ao consumo elétrico de uma casa brasileira por quatro anos ou às emissões anuais de dois carros a gasolina. Essa capacidade de absorção rápida posiciona a Amazônia como um ativo chave para o Brasil em negociações internacionais sobre clima.
A proximidade da floresta com cultivos experimentais, como soja, milho, trigo e cacau, revela benefícios agrícolas diretos. Áreas florestais densas reduzem a temperatura, aumentam a umidade e fornecem polinizadores e predadores naturais de pragas, diminuindo a necessidade de defensivos químicos. Esse modelo de convivência entre lavouras e reservas é preconizado pela Embrapa como base para uma agricultura tropical sustentável, alinhando-se a políticas de adaptação climática que serão debatidas na COP30.
Simbolicamente, a Capoeira transmite uma mensagem dupla: a possibilidade de regenerar áreas desmatadas com intervenção mínima da natureza, mas também o alerta sobre o tempo necessário para isso, que a humanidade pode não dispor em meio à crise climática. Ferreira observa que, em cerca de uma década, já se notam melhorias como redução de temperatura e enriquecimento do solo. Recentemente, o local inspirou a criação do Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas da Recuperação da Amazônia, visando replicar o exemplo em todo o bioma. Com visitas de autoridades como o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, o fragmento reforça o posicionamento político do Brasil como líder em restauração florestal.