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sexta-feira , 6 março 2026
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A dez minutos da COP30, ilha amazônica expõe contrastes entre diplomacia e realidade local

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Belém (PA) — Enquanto discussões diplomáticas sobre mudanças climáticas ocorrem na COP30, a Ilha do Combu, a apenas dez minutos de barco do evento, revela uma realidade que clama por soluções concretas. Com cerca de 3 mil habitantes, a ilha ribeirinha enfrenta a falta de acesso amplo a água potável, apesar de estar cercada pelo rio Guamá. Os moradores utilizam a água do rio para banho e lavagem de roupas, tratando-a de forma caseira com cloro e decantação, mas dependem de galões entregues irregularmente para beber e cozinhar, ao custo de R$ 5 cada.

Recentemente, avanços foram registrados com a instalação de cisternas para captação de água da chuva em alguns estabelecimentos comerciais, por meio do programa Água Para Todos. Iniciado em janeiro de 2025, o projeto resulta de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas), o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio) e a empresa New Fortress Energy. Essa iniciativa tem sido crucial para locais como o restaurante Saldosa Maloca, de Prazeres Quaresma dos Santos, que também produz açaí e cacau.

A produção local destaca a dependência da água potável para a economia ribeirinha. Para processar 30 quilos de açaí, são necessários pelo menos 60 litros de água, e mais da metade da renda dos moradores vem dessa fruta. Prazeres, proprietária do Saldosa Maloca, cultiva açaí e cacau em um sistema agroflorestal em seus 42 hectares, integrando outras frutas como cupuaçu e manga. A safra atual é de cinco a sete rasas por dia (cada uma de 30 quilos, vendida a R$ 250), bem abaixo das 35 rasas diárias de décadas atrás, devido à falta de mão de obra e tempo para manejo.

Outra figura proeminente é Izete Costa, conhecida como Dona Nena, que produz chocolates tree to bar em sua propriedade de sete hectares, com cerca de 4 mil pés de cacau. Ela compra cacau de outros produtores da ilha, exigindo que sigam o modelo agroflorestal para combater pragas como a vassoura-de-bruxa, sem uso de químicos. Sua fábrica, quase artesanal, produz 12 quilos de chocolate por dia, vendidos principalmente na loja local e on-line para todo o Brasil. Dona Nena, ex-agente comunitária, formou-se como chocolatier em 2017, impulsionando a escala da produção.

Ambas as empreendedoras, Dona Prazeres e Dona Nena, adotam práticas agroflorestais e incentivam outros produtores a fazer o mesmo, promovendo sustentabilidade em meio aos desafios climáticos. Pescadores locais relatam o desaparecimento de camarões no rio Guamá, atribuído ao aumento da temperatura da água. Suas propriedades abrigam samaúmas centenárias, símbolos de resiliência na floresta, com idades estimadas em 400 e 300 anos, respectivamente.

Essas histórias ilustram os impactos das mudanças climáticas na vida cotidiana, contrastando com as negociações globais da COP30. Moradores ainda enfrentam irregularidades no suprimento de água, dependendo de cisternas ou travessias para Belém, o que reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas para comunidades ribeirinhas.

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