Em um mercado dominado por multinacionais como Bayer, Corteva e Syngenta, que controlam 90% das vendas de sementes de milho no Brasil, a Shull Seeds surge como uma alternativa nacional. Fundada em 2017 por Paulo Pinheiro, a empresa foca na customização de variedades adaptadas aos microclimas variados do país, explorando nichos onde pode oferecer soluções mais competitivas. Pinheiro, CEO e fundador, explica que o Brasil, com sua extensão latitudinal, apresenta variações climáticas maiores que as dos Estados Unidos, o que cria oportunidades para sementes específicas que atendam melhor às necessidades locais dos agricultores.
A estratégia da Shull envolve identificar microrregiões onde suas sementes possam superar as ofertas das gigantes. A empresa opera em todas as regiões brasileiras, mas prefere evitar mercados onde não tenha a melhor proposta. Segundo Pinheiro, o uso de sementes adaptadas pode multiplicar a produtividade por até dez vezes, embora o custo seja maior que o de opções comuns. Ele ressalva que o investimento vale a pena dependendo do perfil do produtor, que deve considerar práticas de manejo e adubação para maximizar o potencial das sementes de alto desempenho.
Com faturamento projetado em cerca de R$ 200 milhões para este ano e crescimento anual acima de 50%, a Shull ambiciona alcançar 10% do mercado até 2035. Pinheiro afirma que a empresa não está sendo construída para venda, mas para competir em escala maior. A companhia terceiriza o beneficiamento de sementes, mas mantém três centros de pesquisa, 56 locais de validação e 55 representantes de vendas. Seu banco de germoplasma é ampliado por convênios com instituições, e o processo de desenvolvimento usa inteligência artificial para caracterizar e cruzar linhagens, reduzindo o tempo de criação de novas variedades.
O boom do etanol de milho, com investimentos de R$ 40 bilhões até 2030 e expansão da safrinha para até 30 milhões de hectares, deve impulsionar a demanda por sementes adaptadas. Pinheiro destaca que esse crescimento pode ocorrer sem abertura de novas áreas, aproveitando plantios de soja sem milho subsequente, o que aumenta a necessidade de produtividade em microclimas específicos.
Pinheiro, ex-diretor da Tecnoseeds, fundou a Shull com José de Leon, veterano em genética agrícola. O desenvolvimento de sementes evoluiu do empirismo para métodos avançados, inspirados no trabalho de George Harrison Shull, que criou o milho híbrido no início do século XX. Hoje, a empresa explora inovações como sementes inoculadas com bactérias para fixação biológica de nitrogênio, similar à técnica usada na soja pela Embrapa, o que poderia reduzir custos com fertilizantes e benefícios ambientais.
Entre as inovações sigilosas, Pinheiro menciona possibilidades como plantas de menor porte ou melhor aproveitamento solar via manipulação de DNA. A Shull opera com cerca de 30 mil linhagens e também trabalha com sorgo, considerando expansão para soja. O processo de desenvolvimento pode levar até cinco anos, com testes que descartam 90% das linhagens para focar nas mais promissoras.