Nova exigência de provisionamento contábil e aumento das operações em atraso levam bancos a adotar postura mais conservadora, impactando o financiamento do agronegócio brasileiro
Crédito mais restrito para o agronegócio
A combinação entre inadimplência crescente no crédito rural e a entrada em vigor de regras mais rígidas do Banco Central deve tornar o ambiente de financiamento ao campo ainda mais restritivo em 2026. A avaliação é de especialistas do setor financeiro, que apontam que, mesmo com renegociações e alongamentos de dívidas, o efeito dessas operações sobre os balanços dos bancos tende a se prolongar por vários anos, limitando a concessão de novos empréstimos ao agronegócio no Brasil.
Impacto da Resolução 4.966/2021
No centro desse movimento está a Resolução 4.966/2021, que passou a valer no início de 2025 e alterou de forma significativa o modelo de provisionamento contábil das instituições financeiras. A norma exige que os bancos reconheçam perdas esperadas desde a concessão do crédito e adotem critérios mais severos para operações vencidas. Em casos de atrasos superiores a 90 dias, por exemplo, o provisionamento pode ultrapassar 50% do valor financiado, recursos que ficam imobilizados e reduzem a capacidade de novas operações.
Tempo de “cura” pressiona as carteiras
Mesmo quando há renegociação das dívidas ou reforço de garantias, a reversão dessas provisões ocorre de forma lenta. No crédito rural, em que os pagamentos costumam ser semestrais ou anuais, o processo pode levar entre um ano e meio e dois anos. Esse fator prolonga o impacto negativo sobre as carteiras bancárias e contribui para um cenário de maior cautela na liberação de recursos ao setor produtivo.
Efeitos regionais e setoriais
O aperto no crédito já foi sentido de forma mais intensa em 2025, especialmente em regiões produtoras de grãos e pecuária, como Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso. Nessas áreas, dificuldades climáticas e margens pressionadas contribuíram para o aumento da inadimplência, levando bancos a priorizar clientes com melhor perfil de risco e a manter as carteiras em patamar estável, sem expansão relevante.
Perspectivas para 2026 e alternativas de financiamento
Para 2026, a expectativa é de continuidade desse quadro de estabilidade, sem fatores claros que impulsionem a expansão do crédito rural, como aumento expressivo da rentabilidade no campo ou melhora significativa dos preços agrícolas. Diante disso, deve ganhar espaço o financiamento de curto prazo por meio de tradings e revendedoras de insumos, especialmente para produtores que ainda dispõem de garantias reais. A normalização mais ampla do mercado de crédito, segundo analistas, pode levar até três safras.
Risco para quem não renegocia
O cenário mais crítico, segundo especialistas, é o dos produtores que enfrentam dificuldades financeiras e deixam de dialogar com os bancos, apostando em soluções externas ou na judicialização. Nessas situações, a tendência é a execução das dívidas, agravando ainda mais o quadro de restrição de crédito no agronegócio brasileiro.