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sexta-feira , 6 março 2026
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Expointer sem números: A crise que trava o agronegócio gaúcho e expõe falhas em políticas agrícolas

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Pela primeira vez na história da Expointer, os números de vendas de máquinas e implementos agrícolas não serão divulgados neste ano. Representantes do setor apontam que os negócios na feira estão travados devido aos altos juros, ao endividamento dos produtores rurais gaúchos e à demora na liberação de recursos do Plano Safra 25/26. Esse cenário reflete uma crise mais ampla no campo, agravada por políticas de crédito que não atendem às demandas urgentes do agronegócio no Rio Grande do Sul.

Um dos principais entraves é o travamento das linhas do Moderfrota, programa de modernização da frota de tratores e colheitadeiras. Em julho, houve uma queda de 96% nos repasses do programa, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária compilados pelo Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers). Claudio Bier, presidente do Simers e da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), descreve o momento como uma “tempestade perfeita”, com quatro secas consecutivas, uma enchente e taxas de juros elevadas, como a Selic a 15%, que resultam em financiamentos de pelo menos 20% ao ano.

A maioria dos 120 expositores do setor pediu para não divulgar os números de vendas, que estão muito baixos, seguindo o exemplo da Expodireto, que também omitiu dados em 2024. No ano anterior, a Expointer registrou pedidos de R$ 7,393 bilhões no setor. Agora, a crise de endividamento atinge 65 mil produtores rurais gaúchos, com dívidas somando R$ 27,4 bilhões junto a instituições como Banco do Brasil, Sicredi e Banrisul, conforme levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). Isso dificulta o acesso a crédito, exigindo garantias reais como terras, o que complica novas operações financeiras.

Produtores como Jairo Bueno, de Capivari do Sul, enfrentam burocracia e exigências mais rígidas para aprovar financiamentos. Bueno, que cultiva soja, arroz e cria gado em 2.300 hectares, esperou a Expointer para negociar uma colheitadeira com a John Deere, atraído pelas condições melhores na feira. Já o pequeno produtor Nilo Jotz, de Alto Feliz, pesquisa desde janeiro um trator da Valtra, mas teme não conseguir linhas subsidiadas do Pronaf devido à burocracia e aos altos custos das máquinas.

Claudio Bier não vê recuperação no setor até o fim do ano, citando incertezas políticas e econômicas que adiam compras, especialmente com o plantio de grãos já em curso. Hugo Mário Boff, da Mepel, destaca dificuldades para acessar créditos do Plano Safra, embora espere crescimento em vendas para o Centro-Oeste. Empresas como Valtra e Massey Ferguson mantêm otimismo cauteloso, com crescimento em vendas de tratores (19,3% em julho, segundo a Abimaq), mas alertam para a cautela dos produtores diante de commodities em baixa e incertezas climáticas.

Esse quadro expõe vulnerabilidades nas políticas agrícolas federais, como o Moderfrota e o Plano Safra, que demoram a responder às crises regionais. No Rio Grande do Sul, estado chave para o agronegócio brasileiro, a paralisia pode influenciar debates políticos sobre subsídios e juros, afetando a economia nacional em um momento de instabilidade.

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