Levantamento aponta que depressão atinge 36% dos trabalhadores rurais e revela impactos diretos na produtividade e sustentabilidade do setor
O agronegócio brasileiro vive uma “crise silenciosa” de saúde mental, com índices de depressão significativamente superiores à média nacional. De acordo com levantamento da consultoria Great People Mental Health, cerca de 36% dos trabalhadores rurais apresentam sintomas depressivos — mais que o dobro da média geral do país, estimada em 15%. Ao todo, aproximadamente 9 milhões de pessoas no campo enfrentam algum tipo de transtorno mental.
Pressões do campo ampliam adoecimento
O estudo, baseado em revisão de literatura especializada e dados epidemiológicos, aponta que o adoecimento mental no agro está diretamente ligado a uma combinação de fatores estruturais e cotidianos. Entre os principais “estressores ocupacionais” estão a sobrecarga de trabalho, a instabilidade financeira, o isolamento social e as incertezas climáticas — elementos cada vez mais presentes na realidade do produtor rural.
Além disso, desafios como sucessão familiar, conflitos internos nas propriedades e a pressão por adoção de novas tecnologias contribuem para o aumento da ansiedade e da depressão no campo. O levantamento também destaca a influência da exposição prolongada a produtos químicos, que pode afetar o funcionamento neurológico e favorecer transtornos mentais.
Taxas de suicídio preocupam no setor
Um dos dados mais alarmantes do estudo é a incidência de suicídio entre trabalhadores rurais, que supera a média nacional. Segundo compilação com base em dados da UFBA, a taxa no setor agropecuário chegou a 20,5 casos por 100 mil habitantes em 2015, praticamente o dobro da média nacional registrada no mesmo período.
Embora o tema seja sensível, especialistas reforçam que o cenário evidencia a necessidade urgente de atenção à saúde mental no campo, especialmente diante do agravamento das condições econômicas e climáticas nos últimos anos.
Impactos econômicos e sociais no agronegócio
Os transtornos mentais não afetam apenas o bem-estar dos trabalhadores, mas também a eficiência do agronegócio. Entre as principais consequências estão o aumento do absenteísmo, a queda de produtividade, o êxodo rural e dificuldades na sucessão familiar.
Grupos considerados mais vulneráveis incluem mulheres, trabalhadores temporários (safristas), jovens e profissionais expostos a defensivos agrícolas. Entre os jovens, a incidência de problemas emocionais chega a ser quatro vezes maior em comparação com trabalhadores acima de 50 anos.
Barreiras culturais e acesso limitado ao cuidado
Apesar da gravidade do problema, a busca por ajuda ainda enfrenta obstáculos importantes. O isolamento geográfico dificulta o acesso a serviços de saúde, enquanto fatores culturais — como o estigma em torno da saúde mental — impedem que muitos trabalhadores procurem apoio.
A chamada cultura de “resiliência extrema”, especialmente entre homens do campo, contribui para a negligência dos sintomas e o agravamento dos quadros clínicos.
Caminhos para enfrentar a crise no campo
Especialistas defendem uma abordagem integrada para enfrentar o problema, envolvendo políticas públicas, regulação e ações de conscientização. A atualização da Norma Regulamentadora 01 (NR-01), em 2025, que passou a incluir riscos psicossociais no ambiente de trabalho, é vista como um avanço importante.
Entre as medidas recomendadas estão a criação de programas de apoio adaptados à realidade rural, ampliação do acesso a atendimento psicológico, combate ao estigma e maior fiscalização no uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).
A conclusão do estudo é clara: investir em saúde mental no agronegócio é essencial para garantir a sustentabilidade do setor e a permanência das famílias no campo.