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quinta-feira , 14 maio 2026
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Trigo irrigado ganha força no Cerrado e pode reduzir dependência brasileira de importações

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Expansão da irrigação no Oeste da Bahia e no Cerrado brasileiro impulsiona terceira safra e fortalece estratégia de autossuficiência nacional no trigo

O avanço da agricultura irrigada no Cerrado brasileiro está transformando o trigo em uma nova aposta estratégica para o agronegócio nacional. Tradicionalmente concentrada na região Sul, a cultura vem conquistando espaço em áreas irrigadas do Centro-Oeste e do Oeste da Bahia, impulsionada por ganhos de produtividade, manejo tecnológico e potencial de ampliação da terceira safra agrícola.

Dados apresentados na edição de abril de 2026 da Revista Nortène mostram que o Brasil ainda enfrenta déficit na produção de trigo. Enquanto o consumo nacional gira entre 11 e 12 milhões de toneladas por ano, a safra 2024/25 produziu cerca de 7,7 milhões de toneladas. Nesse cenário, especialistas apontam o trigo irrigado no Cerrado como uma alternativa viável para reduzir a dependência das importações e ampliar a segurança alimentar do país.

Cerrado se consolida como nova fronteira do trigo irrigado

O desenvolvimento de variedades adaptadas às regiões mais quentes permitiu que o trigo avançasse para áreas do Cerrado a partir das décadas de 1980 e 1990. Hoje, estados como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Bahia já integram o mapa da nova triticultura brasileira.

No Oeste baiano, a cultura ainda ocupa área considerada pequena em relação às grandes commodities, mas vem registrando crescimento nos sistemas irrigados. Segundo a publicação, a área plantada saltou de aproximadamente 500 hectares em 2015 para cerca de 18 mil hectares em 2021, embora tenha recuado posteriormente para cerca de 7 mil hectares devido às oscilações de mercado e rentabilidade.

Área plantada de trigo irrigado no Oeste da Bahia evoluiu rapidamente nos últimos anos.

A produtividade média da região gira em torno de 5.750 kg por hectare, desempenho considerado elevado para padrões nacionais. O cultivo ocorre principalmente na entressafra, aproveitando a irrigação por pivô central durante o período seco do ano.

Irrigação aumenta produtividade e reduz riscos climáticos

Trigo irrigado no Cerrado alcança produtividade acima da média nacional.

O estudo destaca que o trigo irrigado no Cerrado apresenta vantagens importantes em relação ao cultivo tradicional do Sul do país. O clima mais seco durante a colheita reduz perdas e problemas fitossanitários, enquanto a elevada luminosidade acelera o metabolismo da planta e favorece altas produtividades.

Produções comerciais médias de 6 toneladas por hectare, equivalentes a cerca de 100 sacas por hectare, já são realidade em áreas irrigadas do Cerrado brasileiro. Em algumas regiões produtoras de Goiás e Minas Gerais, produtividades podem alcançar até 9 mil kg por hectare.

Pesquisas da Embrapa também apontam que o manejo eficiente da irrigação pode equilibrar produtividade e sustentabilidade ambiental. O planejamento hídrico adequado melhora o uso da água, reduz custos energéticos e contribui para a estabilidade produtiva mesmo em períodos de estiagem prolongada.

Monitoramento hídrico é decisivo para o desempenho do trigo irrigado.

Rotação de culturas fortalece sustentabilidade no campo

Além da rentabilidade, o trigo vem sendo incorporado aos sistemas irrigados como ferramenta de rotação de culturas. A palhada gerada pela cultura melhora a matéria orgânica do solo, auxilia no controle de plantas daninhas e contribui para a redução de nematoides, problema recorrente em diversas áreas agrícolas do Cerrado.

Estudo aponta melhor equilíbrio produtivo com manejo racional da irrigação.

O modelo também amplia a eficiência do uso da irrigação, especialmente em regiões com reservatórios revestidos por geomembranas, conhecidos como “piscinões”. Esses sistemas permitem armazenar água no período chuvoso e utilizá-la durante a terceira safra, aumentando significativamente a área irrigada disponível nas propriedades rurais.

Especialistas avaliam que o crescimento do trigo irrigado poderá seguir trajetória semelhante à observada em outras culturas que ganharam escala no Cerrado nas últimas décadas, consolidando o bioma como uma das principais fronteiras agrícolas do mundo.

Bahia pode ampliar protagonismo na produção irrigada

Com grandes áreas irrigadas, expansão tecnológica e disponibilidade de sistemas de armazenamento hídrico, o Oeste da Bahia aparece como uma das regiões com maior potencial de crescimento da triticultura irrigada no Brasil.

O fortalecimento da cultura pode abrir novas oportunidades econômicas para produtores da região, diversificar receitas e reduzir a dependência nacional do cereal importado. Para especialistas do setor, o avanço do trigo irrigado representa não apenas uma nova alternativa de produção, mas uma estratégia nacional de segurança alimentar e sustentabilidade agrícola.

Autor: Everardo Mantovani, Professor Sênior da UFV, Consultor

Fonte: Revista Nortène – edição abril de 2026

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