Com retração de até 44% nos investimentos e inadimplência recorde, especialistas apontam que o agronegócio enfrenta a pior escassez de crédito das últimas três décadas no Brasil.
Crise atinge todo o país, diz Farsul
O Brasil atravessa o momento mais crítico do crédito rural desde a criação do Plano Real, em 1994. Levantamento da Assessoria Econômica da Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul) mostra uma queda expressiva de 23% nos recursos disponíveis para custeio e de 44% nos valores destinados a investimentos no primeiro trimestre da safra 2025/2026, em comparação com o ciclo anterior.
Segundo o economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, trata-se de uma crise generalizada, que afeta todas as regiões do país. “Não estamos vivendo uma crise de crédito no Rio Grande do Sul, mas no Brasil. É, seguramente, a maior da história”, destacou.
Diferença entre o anunciado e o executado
Embora o governo federal tenha anunciado o “maior Plano Safra da história”, o economista aponta uma distância inédita entre o valor divulgado e o efetivamente disponibilizado aos produtores. “O agro cresce, a necessidade de crédito aumenta, mas, pela primeira vez, o volume real está caindo de forma acentuada”, explicou Luz.
O especialista ressalta que 75% dos recursos do crédito rural não recebem subsídios públicos, o que torna o setor dependente das condições de mercado — hoje, mais restritivas e caras.
Inadimplência recorde agrava cenário
A inadimplência do setor também atingiu níveis históricos: em julho de 2025, a taxa chegou a 5,14%, a maior desde 2017. Nos contratos de crédito com juros livres, o índice alcançou 9,35%, pressionado pelos efeitos da alta da Selic nos últimos períodos.
“Os reflexos das decisões do COPOM são defasados. Ainda estamos sentindo os aumentos anteriores, o que significa que a inadimplência deve piorar antes de melhorar”, afirmou Luz.
Alienação fiduciária preocupa produtores
Outro fator que agrava a crise é o uso crescente da alienação fiduciária como garantia de empréstimos rurais. De acordo com o diretor jurídico da Farsul, Nestor Hein, essa modalidade acelera a retomada de propriedades em caso de inadimplência, ampliando o risco para os produtores.
“Alertamos os produtores para buscarem alternativas, como hipoteca ou outras formas de garantia. A alienação fiduciária é rápida e eficiente, mas compromete o patrimônio de quem já enfrenta dificuldades financeiras”, advertiu Hein.
Impactos sobre a safra 2025/2026
A falta de crédito pode impactar diretamente o desempenho da nova safra, com redução no uso de tecnologias e possível diminuição das áreas plantadas. “É uma situação inédita. Todas as possibilidades estão sobre a mesa”, concluiu Antonio da Luz.
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