O Frigorífico Balbinos Agroindustrial, localizado em Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul, enfrenta uma grave crise financeira que culminou em um pedido de recuperação judicial. Protocolado em 31 de outubro de 2023, o requerimento foi apresentado à Vara Regional de Falências e Recuperações de Campo Grande, após a empresa suspender suas atividades e conceder férias coletivas a partir de 10 de outubro. Pecuaristas relatam que a interrupção das operações é vista como uma manobra para postergar pagamentos de notas fiscais vencidas, o que levou a ações judiciais para bloquear ativos, penhorar bens e arrestar gado.
De acordo com documentos judiciais, o endividamento total da empresa ultrapassa R$ 120,8 milhões, incluindo R$ 32,5 milhões em dívidas de curto prazo e R$ 130 milhões a longo prazo. Fontes do setor estimam que as dívidas com pecuaristas, referentes a entregas de gado para abate, variam entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões. Entre os principais credores estão o Banco Daycoval, com R$ 22,4 milhões; o Banco Sofisa, com R$ 13,9 milhões; o Banco do Brasil, com R$ 4,8 milhões; e o Fundo Unique FIDC, com R$ 3,5 milhões. A companhia, que emprega cerca de 350 colaboradores diretos e 250 indiretos, alega impossibilidade de comprar gado devido à crise de caixa.
A direção do frigorífico atribui o desequilíbrio financeiro a investimentos de mais de R$ 50 milhões em modernização da planta industrial, além de fatores externos como juros altos, volatilidade cambial e redução na oferta de bovinos prontos para abate no estado. Outros elementos citados incluem mudanças no perfil produtivo de Mato Grosso do Sul, com o avanço de usinas de etanol de milho, florestas de eucalipto e citrus sobre áreas de pecuária, o que elevou o custo da arroba. Produtores já recorreram à Justiça por calotes em entregas de gado, com débitos superiores a R$ 2 milhões.
A recuperação judicial, prevista na Lei nº 11.101/2005, permite que empresas em crise suspendam dívidas temporariamente e elaborem um plano de reestruturação para evitar a falência. No caso da Balbinos, foi solicitada a suspensão de ações e execuções por 180 dias, o chamado “stay period”, durante o qual credores não podem cobrar judicialmente ou apreender bens. A empresa deve apresentar um plano com prazos e formas de pagamento, a ser aprovado em assembleia de credores; caso contrário, pode resultar em falência.
Essa situação reflete uma tendência alarmante no agronegócio brasileiro, com um aumento de mais de 300% nos pedidos de recuperação judicial em 2023, segundo a Serasa Experian. Fatores como juros elevados, queda nos preços das commodities, seca e inadimplência impulsionam essa onda, afetando grandes grupos de proteína animal, cooperativas e tradings. Especialistas alertam para o risco de desequilíbrio em cadeias produtivas, especialmente em regiões dependentes de empresas como frigoríficos, impactando pecuaristas, transportadores e o comércio local.
O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Carnes e Aves informou que há previsão de retomada das operações em 6 de novembro, mas a direção da Balbinos não comentou as acusações de calote. Produtores com créditos pendentes são aconselhados a buscar orientação jurídica imediata, evitando novas entregas sem garantias contratuais. A escalada de recuperações judiciais no setor acende um alerta nacional, com bancos e fundos endurecendo condições de crédito, o que pode agravar a instabilidade econômica no campo.