O produtor rural José Steffen, de Santa Rosa (RS), conhecido como o “berço nacional” da soja, convive há anos com os impactos da ferrugem asiática. Ele cultiva mais de 100 hectares e relata perdas de até 50% da produção em anos favoráveis ao fungo. Segundo o Programa Monitora Ferrugem RS, o município está em risco muito alto para a ocorrência de esporos da doença, que pode comprometer entre 10% e 90% da produtividade.
Atualmente, o clima favorece o desenvolvimento da ferrugem em regiões do sul de Mato Grosso do Sul ao Rio Grande do Sul, com chuvas regulares, alta umidade e temperaturas entre 15°C e 28°C. Fernando Zanelatto, supervisor agronômico da Cooperativa C.Vale em Palotina (PR), alerta que, apesar de nenhum caso reportado na safra 2025/26 pelo Consórcio Antiferrugem, os produtores devem permanecer vigilantes.
A principal recomendação é respeitar o vazio sanitário da soja, estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, com interrupção obrigatória do plantio por pelo menos 90 dias para quebrar o ciclo do fungo. Zanelatto enfatiza que semear na época recomendada evita maior exposição à doença, e o monitoramento constante das lavouras, com apoio de agrônomos, é essencial para identificar sintomas precoces como amarelecimento e queda de folhas.
A aplicação preventiva de fungicidas é outra medida crucial, com rotação de mecanismos de ação para evitar resistência do fungo Phakopsora pachyrhizi. Zanelatto sugere fungicidas multissítios e intervalos regulares de aplicação, considerando condições climáticas e equipamentos adequados. José Steffen adota essas práticas, iniciando o plantio em outubro após o vazio sanitário e monitorando influências do Paraguai via correntes de ar.
Cláudia Godoy, pesquisadora da Embrapa Soja, destaca que a ferrugem asiática, embora ainda severa, reduziu sua incidência em Mato Grosso, maior produtor nacional, graças ao vazio sanitário, cultivo precoce e safrinha de milho. Dados do Consórcio Antiferrugem mostram queda de 261 ocorrências na safra 2021/22 para apenas duas em 2024/25. No entanto, em regiões frias como o Sul, onde o trigo é cultivado no inverno, o ciclo mais longo favorece a doença.
Godoy atribui avanços ao melhoramento genético priorizando resistência à ferrugem, direcionado ao Sul. Ela ressalta que fungicidas têm eficiência máxima de 60%, e o manejo preventivo é vital, especialmente com a previsão de La Niña fraco na safra 2025/26. “Clima bom para a soja é clima bom para as doenças da soja também”, adverte a pesquisadora, reforçando a necessidade de informação sobre riscos regionais.