Dois irmãos foram mortos em um confronto com a polícia durante uma operação de reintegração de posse em Machadinho do Oeste, Rondônia. Alex Santos Santana e Alessandro Santos Santana participavam de ocupações em fazendas do Grupo Nelore Di Gênio, e o incidente ocorreu na última quinta-feira (20), em meio a uma disputa agrária que envolve centenas de famílias. As versões sobre o ocorrido divergem entre a Polícia Militar, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e os proprietários das terras, o que tem gerado investigações para esclarecer os fatos.
De acordo com a Polícia Militar de Rondônia, os irmãos foram baleados após uma troca de tiros com agentes do Batalhão de Choque. A corporação relata que os policiais patrulhavam a rodovia RO-133 para prevenir novas ocupações quando avistaram um veículo em alta velocidade. Após ignorar a ordem de parada, o carro fugiu para uma área de mata, atolou, e os ocupantes teriam desembarcado armados e disparado contra os agentes. A PM afirma ter apreendido duas armas e munições, e que os irmãos foram socorridos, mas não resistiram aos ferimentos no hospital local.
A Comissão Pastoral da Terra contesta a narrativa oficial, alegando que não houve troca de tiros e que a ação policial se assemelhou a uma “caçada humana”. Josep Iborra, assessor agrário da CPT conhecido como Zezinho, afirma que as famílias já haviam deixado as fazendas pacificamente após decisões judiciais, mas muitas permaneceram na região, escondidas na mata e sem destino. Ele denuncia que o local da morte não foi preservado para perícia, apesar de ter sido acionada, e critica a operação por ser excessivamente agressiva.
A desocupação das quatro fazendas começou semanas antes, sem notificação prévia às famílias e sem um Plano de Desocupação, conforme exigido pelo Conselho Nacional de Justiça. A operação envolveu helicópteros, dezenas de viaturas e um carro blindado, intensificando o clima de repressão. A CPT argumenta que as terras pertencem ao poder público e foram griladas pelo grupo empresarial, enquanto liminares de reintegração foram expedidas pelo Tribunal de Justiça de Rondônia entre maio e outubro.
Os advogados do Grupo Di Gênio, por sua vez, afirmam que as ocupações se repetem desde o ano passado e que os sem-terra promoveram desmatamento, extração ilegal de madeira e loteamento informal para revenda. As propriedades, adquiridas por João Carlos Di Gênio na década de 1970, são usadas para recria e engorda de gado. A PM sustenta que agiu para cumprir as ordens judiciais e garantir a segurança, mantendo presença na região para preservar a ordem.
O episódio destaca a escalada de violência em conflitos fundiários na Amazônia, onde Rondônia registra ações tensas impulsionadas pelo avanço da pecuária e acusações de grilagem. A ausência de políticas de assentamento agrava a vulnerabilidade das famílias envolvidas.
A falta de perícia no local, admitida pela PM, aumenta as dúvidas sobre o incidente e pressiona autoridades como o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a Ouvidoria Agrária Nacional, o Incra e o Ministério Público, acionados pela CPT, para que manifestem posição e investiguem o caso. A região segue sob forte policiamento, com comunidades afetadas pelo conflito em busca de resolução.