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Dos choques do petróleo à resiliência energética: os 50 anos do Proálcool no Brasil

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O Proálcool, programa pioneiro de biocombustíveis no Brasil, completou 50 anos em 14 de novembro, sendo hoje reconhecido como um marco nacional que impulsiona o agronegócio e a produção de energia sustentável. Segundo Gonçalo Pereira, coordenador do Laboratório de Genômica e BioEnergia da Unicamp, o programa é um “avô orgulhoso” dos biocombustíveis, contribuindo para que o país alimente quase dois bilhões de pessoas com proteína animal. No entanto, sua trajetória foi marcada por desafios como choques geopolíticos, políticas governamentais e limitações tecnológicas, além da concorrência com o petróleo, o que em certos momentos o transformou em vilão por falhas no suprimento e nos preços.

Um dos impactos iniciais do Proálcool foi o estímulo à produtividade da cana-de-açúcar, com o pagamento baseado no teor de sacarose em vez de volume, incentivando inovações. Luciano Rodrigues, diretor de economia e inteligência setorial da Unica, destaca o foco no ATR, indicador de produtividade que mede o açúcar e coprodutos como o etanol. Plínio Nastari, fundador da Datagro, aponta que o ATR no Centro-Sul passou de 7,1 milhões de toneladas em 1975 para uma projeção de 149,2 milhões em 2034/35. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), fundado pela Copersucar em 1969, desenvolveu variedades que expandiram a produção para novas regiões, como o oeste paulista, permitindo moagem de março a dezembro, conforme explica Luiz Antonio Dias Paes, diretor comercial do CTC.

A competitividade cresceu com reduções de custo e avanços agrícolas e industriais. Nastari menciona que a produtividade do álcool saltou de 2.100 litros por hectare em 1975 para até 9.000 em usinas atuais, com potencial de 15 mil. Esses ganhos fomentaram inovações em fermentação e plantio, fortalecendo a indústria local e posicionando o Brasil como líder em biocombustíveis.

O envolvimento da indústria automobilística representou outro desafio superado. Henry Joseph Júnior, diretor técnico da Anfavea, relata que inicialmente o programa não considerava as montadoras, como Fiat, Ford, General Motors e Volkswagen, esperando conversões em oficinas. O Choque do Petróleo de 1973, após a Guerra do Yom Kippur, acelerou discussões, mas problemas como corrosão e alto consumo surgiram. Em 1977, o Protocolo do Proálcool alinhou especificações de qualidade, levando ao lançamento do Fiat 147 a álcool em 1979. Campanhas como “Carro a álcool, você ainda vai ter um” impulsionaram vendas, que atingiram 90% do total entre 1982 e 1985, estimulando o desenvolvimento local de engenharia automotiva.

A década de 1980 trouxe crises severas. Com a queda do petróleo para abaixo de US$ 10 por barril, o programa foi questionado, como recorda Shigeaki Ueki, ministro de Minas e Energia no governo Geisel. A escassez de etanol em 1989, agravada pela preferência dos usineiros pelo açúcar devido a preços internacionais e inflação, causou desespero entre motoristas. Maurilio Biagi Filho, ex-líder da Usina Santa Elisa, alega que a falta foi “engendrada” pelo governo, regulado pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). As vendas de carros a álcool caíram para menos de 10%, e inovações como o Proconve priorizaram veículos a gasolina.

O Proálcool enfrentou quase uma década de declínio, com a extinção do IAA em 1990 pelo governo Collor e a retirada de subsídios no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Apesar disso, o programa ressurgiu, fomentando inovações e autonomia energética, e hoje é visto como vetor de pujança econômica.

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