No sul da Bahia, especificamente em Ilhéus, principal polo produtor de cacau no Brasil, surge um conflito entre cacauicultores e as grandes indústrias processadoras. Os produtores reclamam de descontos nos preços pagos pelas amêndoas, que variam entre 5% e 15% em relação à cotação internacional na bolsa de Nova York. Essa divergência afeta cerca de 41 mil cacauicultores, sendo 70% deles pequenos produtores, que enfrentam margens apertadas devido a problemas como a infestação de vassoura-de-bruxa, solos pobres em nutrientes e baixa mecanização.
As queixas ganharam destaque durante a primeira edição da Expocacau, realizada na semana passada em Ilhéus, onde até conversas informais entre taxistas, garçons e recepcionistas ecoavam o descontentamento. Os alvos principais são as três gigantes do setor: Barry Callebaut, Cargill e Olam Food Ingredients (OFI), responsáveis por 95% do cacau processado no país. Produtores, falando em sigilo por medo de retaliações nas vendas, criticam a falta de sustentabilidade financeira, argumentando que o foco do mercado está apenas em aspectos ambientais e sociais.
A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), representada por sua presidente executiva Anna Paula Losi, defende que se trata de um “diferencial” oscilante, não um desconto fixo. Segundo ela, historicamente, em 70% do tempo, os produtores receberam valores acima da cotação global, e as variações atuais decorrem de flutuações de mercado e instabilidade geopolítica. Losi enfatiza que, ao analisar períodos mais longos, como trimestres ou semestres, o preço médio se aproxima da referência internacional.
O contexto inclui preços recordes do cacau, que atingiram US$ 12,6 mil por tonelada em dezembro passado e agora estão em cerca de US$ 7,5 mil, impactando a demanda por chocolate. Isso levou a uma queda de 14% no volume de moagem no primeiro semestre, comparado a 2024, o pior em nove anos. Fatores como logística, tributação estadual, qualidade das amêndoas e equilíbrio entre oferta e demanda, agravados por crises em produtores como Costa do Marfim e Gana, também influenciam as negociações.
Losi destaca riscos adicionais, como o tarifaço dos Estados Unidos, que impõe 50% de sobretaxa a derivados de cacau brasileiros, e custos de armazenagem para produtores que optam por não vender imediatamente. Ela sugere que os cacauicultores considerem opções como exportação, apesar das dificuldades em encontrar compradores dispostos a pagar preços semelhantes.
A AIPC, alinhada à CocoaAction, prioriza discussões sobre produtividade em vez de preços, propondo expansão do barter para troca de insumos por produção e incentivos governamentais para educação em tempo integral nas escolas públicas da região. Isso liberaria mão de obra familiar para as lavouras, combatendo a escassez.
Outra prioridade é combater a informalidade, incentivando bancarização e fluxo de caixa para evitar vendas a intermediários que abocanham até 30% do lucro. Losi defende o cooperativismo como solução e enfatiza a importância do diálogo para resolver as tensões no setor.