O mercado brasileiro de etanol pode registrar o primeiro déficit em 14 anos, com uma diferença negativa de 890 milhões de litros entre produção e consumo ao final da safra 2025/26. De acordo com estimativas da Veeries, o Centro-Sul apresentará um superávit de cerca de 2 bilhões de litros, o menor desde a safra 2016/17. Esse cenário, o primeiro desde 2011, quando uma quebra na safra de cana impactou o setor, não indica escassez imediata, mas deve manter os preços elevados até o início da próxima safra, conforme analisa Fabio Meneghin, sócio da Veeries.
Embora os estoques sejam suficientes para suprir a demanda, a oferta apertada já reflete nos preços. Em São Paulo, o etanol hidratado subiu 3,7% ao consumidor em aproximadamente 30 dias, segundo dados da ANP. Isso piorou a relação de troca com a gasolina, embora ainda favorável ao etanol no maior estado produtor. Em mercados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, a gasolina se tornou mais competitiva, reduzindo a participação do etanol hidratado no consumo de combustíveis de ciclo Otto.
A alta nos preços do etanol hidratado, que aumentou 4% em 2025 contra apenas 0,6% da gasolina, resultou em uma queda no share do biocombustível para 30,8% em setembro, ante cerca de 32% no início do ano e no mesmo período anterior. Meneghin atribui isso a frustrações na safra de cana-de-açúcar, com produção de etanol de cana terminando pelo menos 2 bilhões de litros abaixo do esperado, equivalente a um mês de consumo, e 3 bilhões de litros menor que a safra anterior.
Enquanto isso, a produção de etanol de milho cresceu acima do previsto, superando a safra passada em 1 bilhão de litros e alcançando 9,1 bilhões de litros nesta temporada, segundo a Veeries. No entanto, esse aumento não compensa o déficit na oferta de cana. Adicionalmente, o consumo de etanol hidratado foi estimulado em agosto com a elevação da mistura obrigatória na gasolina de 27,5% para 30%, contribuindo para a pressão nos preços.
Com o balanço entre oferta e demanda apertado, as importações de etanol se tornaram viáveis. De abril a agosto, foram importados 150 milhões de litros, acima da média dos últimos cinco anos. Meneghin observa que, embora o volume ainda seja baixo, o cenário sugere um aumento nas importações este ano.
Diante da alta, usinas poderiam ajustar o mix alcooleiro para elevar a produção de etanol, mas o espaço é limitado devido a line-ups fortes de açúcar para outubro e embarques intensos em setembro. O terço final da safra no Centro-Sul, marcado por chuvas que naturalmente aumentam a produção de etanol, já está nas projeções. Outra opção é antecipar a moagem da safra 2026/27, dependendo dos preços, o que poderia evitar o déficit estimado para março de 2026.
O aperto na oferta deve durar apenas até o início da safra 2026/27, quando a produção total de etanol deve crescer 15%, atingindo 41,8 bilhões de litros. A produção de cana recuperaria 2 bilhões de litros perdidos, alcançando 28,3 bilhões de litros (aumento de 8%), enquanto o etanol de milho subiria 35%, para 13,2 bilhões de litros. Nesse contexto, o etanol hidratado poderia retomar market share, aproximando-se de 35% no consumo nacional.