Mesmo com público estável, feira em Ribeirão Preto reflete cenário desafiador da agricultura brasileira, marcado por juros altos e retração no mercado de máquinas
Agrishow reflete momento desafiador do agro brasileiro
A 31ª edição da Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto (SP), encerrou com R$ 11,4 bilhões em intenção de negócios, representando uma queda de 22% em relação aos R$ 14,6 bilhões registrados em 2025. Considerada a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, o evento manteve o público próximo ao do ano passado, com cerca de 197 mil visitantes.
Os números divulgados referem-se principalmente aos setores de máquinas agrícolas, irrigação e armazenagem — segmentos diretamente impactados pelo atual cenário econômico do país.
Juros altos e crédito impactam decisões de compra
De acordo com Pedro Estevão Bastos, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, o desempenho da feira reflete a realidade enfrentada pelo setor.
Segundo ele, a queda nas vendas de máquinas agrícolas no primeiro trimestre — de quase 20% — evidencia um mercado pressionado por fatores como juros elevados, inadimplência, variação cambial e preços das commodities.
Além disso, o anúncio de uma nova linha de crédito de R$ 10 bilhões pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, via Finep, acabou influenciando o comportamento dos produtores. Muitos optaram por adiar investimentos aguardando a operacionalização do financiamento.
Percepção no campo confirma retração
Durante o evento, a reportagem constatou estandes menos movimentados e produtores mais cautelosos. O custo elevado do crédito rural tem sido um dos principais fatores de freio nas decisões de compra, especialmente em um ciclo considerado desfavorável para o agronegócio.
Apesar disso, lideranças do setor reforçam que a agricultura brasileira é cíclica e mantém fundamentos sólidos para recuperação nos próximos anos.
Empresas apresentam resultados positivos pontuais
Mesmo diante da retração geral, algumas empresas conseguiram se destacar. A XCMG Brasil, por exemplo, registrou crescimento entre 5% e 10% nas vendas, impulsionada pelo lançamento de novos modelos de tratores.
Já a Tritucap Equipamentos Agrícolas superou expectativas ao retornar à feira após sete anos. A empresa comercializou 31 máquinas e avançou negociações de outras 27, com destaque para soluções voltadas à sustentabilidade no manejo agrícola.
Resiliência do agro mantém expectativas positivas
Para João Carlos Marchesan, o desempenho da feira demonstra a resiliência do agronegócio brasileiro, mesmo diante de um ambiente econômico adverso.
Ele reforça que o setor continua investindo em tecnologia e inovação, apostando na retomada do crescimento nos próximos ciclos produtivos — um movimento que também impacta diretamente regiões estratégicas como o Oeste da Bahia, um dos principais polos agrícolas do país.